Quando a Minha Sogra Me Liga às Cinco: Entre Ser Boa Mãe e Má Nora
— Mariana, já deste o jantar ao Tomás? — a voz da minha sogra ecoou pelo telefone, fria e meticulosa, como sempre. O relógio marcava cinco da tarde e eu mal tinha conseguido sentar-me depois de um dia exaustivo no escritório. O Tomás, com apenas três anos, brincava no tapete da sala, espalhando legos por todo o lado, enquanto eu tentava decidir se fazia massa ou arroz para o jantar.
Senti o estômago apertar-se. Não era só uma pergunta inocente. Era um teste. Como sempre. Desde que casei com o Rui, há seis anos, sinto que nunca sou suficiente para ela. Nunca sou tão organizada quanto ela era, nunca cozinho tão bem, nunca visto o Tomás com as roupas certas para o tempo. E agora, mais uma vez, ela ligava para me lembrar do que devia fazer.
— Ainda não, Dona Teresa. Ele está a brincar um bocadinho antes do banho — respondi, tentando soar calma.
— Pois, mas sabes que ele precisa de jantar cedo. O Rui sempre jantou às cinco e meia quando era pequeno. Era por isso que nunca ficava doente — disse ela, com aquele tom de quem sabe tudo.
Olhei para o Tomás e senti uma onda de culpa. Será que estava a falhar como mãe? O Rui chegaria tarde outra vez, como sempre. E eu ficava ali, sozinha, a tentar equilibrar tudo: trabalho, casa, filho… e as expectativas de uma sogra que nunca me aceitou verdadeiramente.
Desliguei o telefone com um nó na garganta. Sentei-me no sofá e deixei-me afundar nos meus próprios pensamentos. Lembrei-me do dia em que conheci o Rui. Ele era tão diferente da família dele: descontraído, divertido, sem grandes exigências. Apaixonei-me por isso. Mas nunca imaginei que casar com ele significasse também casar com a mãe dele.
No início, tentei agradar-lhe. Convidei-a para almoços de domingo, pedi receitas antigas da família, até comprei toalhas de linho como ela gostava. Mas nada parecia suficiente. Quando engravidei do Tomás, pensei que talvez as coisas mudassem. Que ela visse em mim uma aliada, alguém que continuaria a tradição da família. Mas não. Só vieram mais críticas: “Não devias comer isso grávida”, “O quarto do bebé devia ser azul claro”, “O Rui nunca chorou tanto quando era bebé”.
O Rui dizia sempre: — Mariana, não ligues. A minha mãe é assim com toda a gente.
Mas eu ligava. Ligava porque queria ser aceite. Porque queria ser boa mãe e boa nora. Mas será possível ser as duas coisas?
Naquela noite, depois de dar banho ao Tomás e finalmente conseguir pô-lo a dormir — já passava das oito — sentei-me à mesa da cozinha com um prato de sopa fria à minha frente. O Rui chegou pouco depois.
— Estás bem? — perguntou ele, pousando as chaves e olhando para mim com preocupação.
— A tua mãe ligou outra vez — disse eu, tentando conter as lágrimas.
Ele suspirou. — O que foi desta vez?
— O jantar do Tomás… — respondi, sentindo-me ridícula por estar tão afetada por algo tão pequeno.
O Rui aproximou-se e abraçou-me. — Não deixes que ela te faça sentir assim. Tu és uma ótima mãe.
Mas será que era mesmo? Ou estava só a tentar sobreviver?
No fim de semana seguinte, fomos almoçar a casa dela. Assim que entrámos, senti o cheiro a assado e ouvi o tilintar dos talheres já alinhados na mesa impecável.
— Mariana, trouxeste o casaco do Tomás? Está vento lá fora — perguntou logo à entrada.
— Trouxe sim — respondi, mostrando-lhe o casaco azul escuro.
Ela olhou-o de cima a baixo e disse: — Eu preferia o verde que lhe dei no Natal…
O Tomás correu para o quintal e eu fiquei ali, parada no corredor, sentindo-me uma intrusa na própria família.
Durante o almoço, ela contou histórias do Rui em pequeno: como era obediente, como nunca fazia birras à mesa, como ajudava a pôr a mesa sem ninguém pedir. Eu olhava para o meu filho a atirar ervilhas ao chão e sentia-me cada vez mais pequena.
Depois do almoço, enquanto o Rui ajudava o pai no jardim, fiquei sozinha com ela na cozinha.
— Mariana — começou ela, baixando a voz — eu sei que não é fácil ser mãe hoje em dia. Mas tens de ser mais firme com o Tomás. Ele precisa de regras.
Senti vontade de gritar. De lhe dizer que faço tudo sozinha, que acordo às seis da manhã para preparar tudo antes de ir trabalhar, que passo noites sem dormir quando ele está doente… Mas limitei-me a sorrir e acenar com a cabeça.
No carro, a caminho de casa, explodi:
— Não aguento mais! Sinto que estou sempre a falhar! Nunca sou suficiente para ela!
O Rui ficou em silêncio durante uns segundos antes de responder:
— Mariana… tu não tens de provar nada à minha mãe. Tens de fazer o melhor para ti e para o Tomás.
Mas como é que se faz isso quando tudo à nossa volta parece um teste?
Na segunda-feira seguinte, recebi uma mensagem dela: “Posso passar aí hoje à tarde para ver o Tomás?” Senti um aperto no peito. Queria dizer que não podia, que precisava de tempo para mim. Mas acabei por responder: “Claro que sim”.
Quando ela chegou, trouxe um bolo caseiro e um saco cheio de brinquedos antigos do Rui.
— Achei que o Tomás ia gostar disto — disse ela, pousando tudo na mesa da sala.
O Tomás ficou radiante com os brinquedos e eu sentei-me ao lado deles, observando-os brincar juntos. Pela primeira vez em muito tempo, vi um sorriso genuíno no rosto dela enquanto ensinava ao neto como montar um comboio antigo.
De repente percebi: talvez ela também se sentisse insegura. Talvez quisesse apenas sentir-se útil na vida do neto. Talvez as críticas fossem só uma forma desajeitada de mostrar preocupação.
No final da tarde, quando ela se despediu, olhou para mim e disse:
— Mariana… obrigada por me deixares fazer parte da vida dele.
Fiquei sem palavras. Senti as lágrimas nos olhos e só consegui acenar com a cabeça.
Agora estou aqui, sentada na sala silenciosa depois de mais um dia longo. O Tomás dorme no quarto dele e o Rui lê no sofá ao meu lado. Penso em todas as vezes que me senti insuficiente e percebo que talvez nunca consiga agradar totalmente à minha sogra… mas talvez isso não seja necessário.
Será que é possível ser boa mãe sem ser perfeita nora? Ou será que estamos todos só a tentar encontrar o nosso lugar nesta família imperfeita? E vocês? Já se sentiram assim também?