Não sou ama nem criada: Quando disse à minha filha que tenho a minha própria vida
— Mãe, preciso mesmo que fiques com o Tomás amanhã. O Pedro tem reunião e eu não posso faltar ao trabalho outra vez. — A voz da Mariana soava mais como uma ordem do que um pedido. Eu estava sentada à mesa da cozinha, as mãos ainda húmidas de lavar a loiça, e olhei para ela, sentindo o peso dos anos e das expectativas.
Respirei fundo. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com o aroma da chuva que batia na janela. O relógio marcava quase seis da tarde, e eu sentia o cansaço nos ossos, mas também uma inquietação antiga, como se algo dentro de mim estivesse prestes a rebentar.
— Mariana, amanhã não posso. Tenho consulta no centro de saúde e combinei ir ao cinema com a Lurdes. — Disse isto devagar, quase a medo, mas com uma firmeza que me surpreendeu.
Ela ficou a olhar para mim, incrédula. — Mas mãe, és sempre tu que ficas com o Tomás! Não podes adiar isso? O Pedro não tem ninguém da família dele disponível e eu… — A voz dela tremia, misturada de frustração e desespero.
Senti uma pontada no peito. O Tomás é o meu neto querido, claro que gosto de estar com ele. Mas há meses que os meus dias se resumem a ser ama, cozinheira, motorista. Sinto falta de mim própria, dos meus passeios com as amigas, dos meus livros por ler, do silêncio da minha casa.
— Mariana, eu ajudo-te sempre que posso. Mas também tenho direito à minha vida. Não sou ama nem criada. — As palavras saíram-me mais duras do que queria, mas não as retirei.
O silêncio caiu pesado entre nós. Mariana levantou-se abruptamente da cadeira, os olhos brilhantes de lágrimas contidas.
— Sabes que mais? Sempre foste assim. Quando o pai morreu, também te fechaste no teu mundo! — Atirou-me à cara aquela velha mágoa, como se fosse uma pedra.
Fiquei sem palavras. O passado voltou como uma onda fria: os dias em que me arrastei pelos corredores da casa vazia, tentando sobreviver à dor da perda do António. Talvez tenha falhado como mãe nesses tempos. Talvez ainda falhe agora.
— Mariana… — tentei dizer qualquer coisa, mas ela já estava a sair porta fora, batendo-a com força.
Fiquei sozinha na cozinha, ouvindo apenas o tic-tac do relógio e a chuva lá fora. Senti-me pequena, culpada e ao mesmo tempo aliviada por finalmente ter dito aquilo em voz alta.
Naquela noite não dormi. Revirei-me na cama, ouvindo os ecos das palavras da Mariana. Lembrei-me de quando ela era pequena e eu fazia tudo para a proteger do mundo. Lembrei-me das noites em claro quando ela teve febre alta, dos trabalhos manuais para a escola feitos à pressa depois do jantar, das discussões por causa das saídas à noite na adolescência.
Sempre fui mãe antes de tudo. Mas agora sou avó — e sou mulher também. Não quero passar os meus últimos anos apenas a cuidar dos outros.
No dia seguinte, tentei ligar-lhe. Ela não atendeu. Mandei mensagem: “Se precisares de falar, estou aqui.” Nenhuma resposta.
A Lurdes apareceu à porta às dez em ponto para irmos ao cinema. Olhou para mim e percebeu logo que algo não estava bem.
— Então? — perguntou ela, enquanto caminhávamos debaixo do guarda-chuva pela rua molhada.
— Disse à Mariana que não podia ficar com o Tomás hoje. Ficou furiosa comigo… — A minha voz saiu embargada.
A Lurdes sorriu com ternura. — Tens direito à tua vida, Maria João. Não és menos mãe por isso.
Mas será mesmo assim? A culpa roía-me por dentro. No cinema mal prestei atenção ao filme. Só pensava se Mariana estaria bem, se o Tomás teria ficado com alguém ou se ela teria faltado ao trabalho por minha causa.
À noite, o telefone tocou. Era o Pedro.
— Maria João? Olhe… desculpe estar a ligar-lhe assim… A Mariana está muito em baixo. Disse-me que discutiram ontem… Eu sei que tem feito muito por nós, mas hoje foi complicado…
Senti-me ainda pior. Expliquei-lhe calmamente que precisava de tempo para mim também. Ele compreendeu — ou pelo menos tentou compreender.
Os dias seguintes foram um silêncio gelado entre mim e a Mariana. O Tomás perguntava por mim ao telefone: “Avó, quando vens brincar comigo?” E eu sentia o coração apertar-se.
Uma tarde, decidi ir ter com ela ao trabalho. Esperei-a à porta do escritório, debaixo de um céu cinzento carregado de nuvens.
Quando me viu, hesitou antes de se aproximar.
— Mariana… — comecei eu, com voz baixa — Não quero que fiques zangada comigo. Mas preciso mesmo de cuidar de mim também. Não quero perder-me outra vez…
Ela olhou para mim durante muito tempo antes de responder:
— Eu só queria sentir que posso contar contigo… Sempre achei que eras indestrutível, mãe… — A voz dela era um sussurro magoado.
— Não sou indestrutível, filha. Também me canso, também preciso de colo às vezes…
Ficámos ali paradas na rua durante minutos longos demais para serem confortáveis. Depois ela abraçou-me — um abraço apertado e triste.
Voltámos a falar devagarinho nos dias seguintes. Combinámos horários para eu ficar com o Tomás — mas agora com limites claros. Comecei a sair mais com as minhas amigas; voltei a inscrever-me nas aulas de pintura; até marquei uma viagem com a Lurdes para o verão.
Ainda sinto culpa às vezes — é impossível não sentir quando se é mãe em Portugal e toda a gente espera que as avós estejam sempre disponíveis para tudo. Mas aprendi que não posso dar aos outros se estiver vazia por dentro.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas mulheres como eu vivem presas entre o amor pelos filhos e o medo de perderem a si próprias? Será possível ser boa mãe sem nos esquecermos de quem somos?