Desmaiei no Almoço de Família Porque o Meu Marido Não Me Ajudou com o Nosso Bebé – Será Este o Fim da Nossa Família?

— Mariana, podes passar-me o arroz? — pediu a minha sogra, Dona Teresa, com aquele tom de voz que nunca me deixava esquecer que, para ela, eu nunca seria suficiente para o filho dela.

Eu estava com o meu filho, o pequeno Tomás, ao colo, a tentar acalmá-lo enquanto ele chorava sem parar. O Miguel, sentado ao meu lado, nem sequer olhou para mim. Limitou-se a servir-se de mais vinho, como se nada estivesse a acontecer. Senti o olhar de todos sobre mim, como se esperassem que eu fosse capaz de tudo: ser mãe, esposa, nora perfeita, tudo ao mesmo tempo, sem nunca fraquejar.

— Miguel, podes pegar no Tomás um bocadinho? — pedi, já com a voz a tremer.

Ele olhou para mim, irritado, e respondeu baixo, mas o suficiente para todos ouvirem:

— Mariana, ele só quer a mãe. Deixa-te de dramas.

Senti o rosto a arder de vergonha. O Tomás continuava a chorar, e eu sentia-me cada vez mais fraca. Não dormia há dias, o corpo doía-me todo, e a cabeça parecia prestes a explodir. A minha mãe, sentada do outro lado da mesa, olhava para mim com preocupação, mas não dizia nada. O silêncio era ensurdecedor.

Foi então que tudo ficou preto. Senti as vozes a afastarem-se, o choro do Tomás a tornar-se distante, e caí. Quando acordei, estava deitada no sofá da sala, com a minha mãe a segurar-me a mão e o Miguel a olhar para o telemóvel, impaciente.

— Mariana, estás bem? — perguntou a minha mãe, com lágrimas nos olhos.

— O que aconteceu? — murmurei, sentindo-me ainda mais fraca.

— Desmaiaste, filha. Estás exausta. — Ela olhou para o Miguel, que finalmente levantou os olhos do ecrã.

— Mariana, tens de te cuidar. Não podes estar sempre a fazer tudo sozinha — disse ele, como se a culpa fosse minha.

Senti uma raiva a crescer dentro de mim. Como é que ele não via? Como é que ninguém via? Eu estava a afundar-me, a desaparecer, e ninguém parecia importar-se. O Tomás estava agora ao colo da minha mãe, finalmente calmo. O Miguel levantou-se e foi fumar um cigarro à varanda, como se nada tivesse acontecido.

Naquela noite, em casa, o silêncio entre nós era pesado. O Tomás dormia finalmente, e eu sentei-me na cama, a olhar para o Miguel, que estava a ver televisão.

— Miguel, precisamos de falar — disse, a voz quase a falhar.

Ele suspirou, sem desviar os olhos do ecrã.

— Sobre o quê, Mariana? Já chega de discussões.

— Não é uma discussão. Eu não aguento mais. Sinto-me sozinha, exausta. Preciso que me ajudes. Preciso que sejas pai, não só de nome.

Ele finalmente olhou para mim, mas o olhar era frio.

— Mariana, tu é que quiseste tanto este bebé. Agora tens de aguentar. Eu trabalho o dia todo, também estou cansado.

As palavras dele foram como facas. Senti as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto, mas não disse mais nada. Virei-me para o lado e chorei em silêncio, para não acordar o Tomás.

Os dias seguintes foram um tormento. O Miguel saía cedo, chegava tarde, e eu ficava sozinha com o Tomás, a tentar sobreviver. A minha mãe vinha ajudar quando podia, mas também tinha a vida dela. A sogra, claro, só aparecia para criticar.

Uma tarde, depois de mais uma noite sem dormir, sentei-me no chão da cozinha, com o Tomás ao colo, e chorei. Chorei tudo o que tinha guardado. Senti-me a pior mãe do mundo, a pior mulher, a pior pessoa. Porque é que ninguém me via? Porque é que o Miguel não me via?

Quando ele chegou a casa, encontrou-me assim. Pela primeira vez, pareceu preocupado.

— Mariana, o que se passa? — perguntou, ajoelhando-se ao meu lado.

— O que se passa? O que se passa é que eu não aguento mais, Miguel! Estou sozinha nisto tudo! Preciso de ti! — gritei, sem conseguir controlar a dor.

Ele ficou em silêncio. Pela primeira vez, vi nos olhos dele um medo, uma dúvida. Talvez ele tenha percebido, naquele momento, que podia perder-me.

Naquela noite, ele ficou com o Tomás para eu dormir. Foi a primeira noite em meses em que consegui descansar algumas horas seguidas. Mas no dia seguinte, tudo voltou ao mesmo. O Miguel não sabia como lidar com o bebé, não tinha paciência, e eu sentia-me culpada por exigir dele o que ele não sabia dar.

As discussões tornaram-se mais frequentes. A minha mãe dizia-me para ter paciência, que os homens são assim, que com o tempo tudo melhora. Mas eu sentia que estava a perder-me, a desaparecer. O Miguel começou a sair mais, a chegar cada vez mais tarde. Eu comecei a pensar se não seria melhor separar-me, criar o Tomás sozinha, do que viver assim, nesta solidão a dois.

Um dia, depois de mais uma discussão, o Miguel saiu de casa e não voltou nessa noite. Fiquei sozinha, com o Tomás a chorar, e senti um vazio tão grande que pensei que nunca mais ia conseguir respirar. Liguei à minha mãe, que veio dormir comigo. Falámos a noite toda. Ela contou-me como também se sentiu sozinha quando eu nasci, como o meu pai também não sabia lidar com um bebé, como ela pensou em desistir tantas vezes.

— Mas não desisti, Mariana. Porque tu eras tudo para mim. E tu és tudo para o Tomás. — disse ela, abraçando-me.

No dia seguinte, o Miguel voltou. Tinha os olhos vermelhos, parecia ter chorado. Sentou-se ao meu lado, em silêncio.

— Mariana, eu não sei ser pai. Tenho medo de falhar. Tenho medo de não ser suficiente. — disse, finalmente, com a voz a tremer.

Olhei para ele, surpresa. Pela primeira vez, vi o homem que amei, vulnerável, perdido.

— Eu também tenho medo, Miguel. Todos os dias. Mas precisamos um do outro. Não podemos continuar assim.

Ele abraçou-me, e chorámos juntos. Não sei se vamos conseguir salvar o nosso casamento. Não sei se o Miguel vai mudar, se eu vou conseguir perdoar-lhe o tempo que me deixou sozinha. Mas sei que, naquele momento, fomos honestos um com o outro pela primeira vez em muito tempo.

Agora, quando olho para o Tomás, penso em tudo o que passámos. Penso se vale a pena lutar por esta família, se o amor é suficiente para nos salvar. Será que todas as mães se sentem assim? Será que algum dia vou deixar de me sentir tão sozinha? O que fariam vocês no meu lugar?