Mãe, ainda não limpou o pó! – A história de Jasmina que se esqueceu de si mesma

— Mãe, ainda não limpou o pó da sala? — A voz da Andreia ecoou pelo corredor, cortante como uma faca. Senti o rosto arder, mas não respondi de imediato. O pano húmido escorregava-me entre os dedos, e o cheiro a lixívia misturava-se com o amargo da minha vergonha. Olhei para o relógio: eram quase quatro da tarde e ainda não tinha parado um minuto desde que me levantei.

O Rui estava no trabalho, como sempre. Desde que a fábrica fechou, há três anos, e o meu marido partiu pouco depois, a minha vida virou-se do avesso. Vendi a nossa casa em Vila Nova de Gaia para ajudar o Rui a comprar este apartamento em Matosinhos. Ele prometeu que nunca me faltaria nada, mas nunca pensei que isso significasse perder a minha dignidade.

— Jasmina, ouviu o que eu disse? — Andreia apareceu à porta, braços cruzados, olhar frio. — O pó está a acumular-se. E já devia ter começado o jantar. O Rui chega às seis e gosta de comer cedo.

Engoli em seco. — Sim, Andreia. Já vou tratar disso.

Ela virou costas, resmungando. Fiquei ali, imóvel, a olhar para o chão. Senti uma lágrima escorrer-me pela face. Lembrei-me dos tempos em que era eu quem mandava na minha casa, quem decidia o que se comia, quem recebia os filhos e os netos com alegria. Agora, era uma sombra, uma empregada sem salário, sem direitos, sem voz.

A minha neta, a pequena Leonor, entrou na sala a correr. — Avó, brincas comigo?

Sorri-lhe, tentando esconder o cansaço. — Agora não posso, querida. A avó tem de limpar o pó.

Ela fez beicinho, mas logo se distraiu com um boneco. Senti uma pontada no peito. O que estou a ensinar à Leonor? Que as avós só servem para limpar e cozinhar?

À noite, depois do jantar, sentei-me sozinha na varanda. O Rui estava no sofá, a ver televisão com a Andreia. Ouvi-os rir, cúmplices. Senti-me invisível. Peguei no telemóvel e percorri as mensagens antigas da minha irmã, a Maria, que vive em Braga. Não falávamos há meses. Desde que vim para aqui, afastei-me de todos. Não queria que soubessem o que se passava. Tinha vergonha.

Naquela noite, não consegui dormir. Revirei-me na cama, a cabeça cheia de pensamentos. Lembrei-me do António, o meu marido. Ele nunca me teria deixado passar por isto. Mas ele já não estava cá. Só me restava o Rui, e ele parecia não ver o que se passava.

No dia seguinte, acordei cedo. Preparei o pequeno-almoço para todos. Quando o Rui entrou na cozinha, tentei sorrir.

— Bom dia, filho.

Ele respondeu com um aceno distraído, já a olhar para o telemóvel. Andreia entrou logo a seguir, de cara fechada.

— Jasmina, não se esqueça de passar a ferro as camisas do Rui. E a Leonor precisa do lanche pronto antes das nove.

— Sim, Andreia.

Senti-me esmagada. Cada ordem era um peso. Cada silêncio do Rui, uma facada. Será que ele não via? Ou não queria ver?

À tarde, enquanto limpava a casa de banho, ouvi Andreia ao telefone, na sala.

— Pois, a minha sogra está cá, mas só dá trabalho. Se não fosse por ela, já tínhamos a casa como queríamos. Mas o Rui tem pena, coitado. — Riu-se. — Sim, sim, ela faz tudo, mas não sabe estar calada. Às vezes apetecia-me mandá-la embora.

O chão fugiu-me dos pés. Sentei-me na borda da banheira, a tremer. Era isto que ela pensava de mim? Era isto que eu era para eles?

Quando o Rui chegou, chamei-o à cozinha.

— Rui, posso falar contigo?

Ele olhou-me, impaciente. — O que foi, mãe?

— Sentes que estou a mais aqui?

Ele franziu o sobrolho. — O que é que queres dizer?

— Ouvi a Andreia ao telefone. Ela disse que só dou trabalho, que gostava que eu fosse embora.

Ele suspirou, irritado. — Mãe, não ligues. A Andreia tem os nervos à flor da pele. Tu sabes como ela é. E tu também tens de perceber que isto não é a tua casa. Tens de respeitar o nosso espaço.

As palavras dele caíram-me como pedras. Não é a minha casa. Então, o que sou eu aqui?

Nessa noite, liguei à minha irmã. A voz dela era um bálsamo.

— Jasmina, tens de pensar em ti. Não podes continuar assim. Vem para Braga. Ficas comigo o tempo que quiseres.

Chorei, desabafei tudo. Ela ouviu-me, sem julgar. Pela primeira vez em meses, senti-me ouvida.

No dia seguinte, Andreia voltou a implicar comigo. — O chão da cozinha está pegajoso. Não sabe limpar?

Respirei fundo. — Andreia, eu faço o melhor que posso. Mas também preciso de respeito.

Ela ficou vermelha. — Está a chamar-me mal-educada?

— Só estou a pedir que me trate como uma pessoa. Não sou uma empregada.

O Rui entrou na cozinha, alarmado. — O que se passa aqui?

Andreia virou-se para ele. — A tua mãe acha que mando demasiado nela.

Ele olhou para mim, cansado. — Mãe, por favor, não compliques.

Senti-me sozinha, traída. Fui para o meu quarto e fechei a porta. Sentei-me na cama, a tremer. Peguei na mala e comecei a arrumar as minhas coisas. Não sabia para onde ia, mas sabia que não podia continuar ali.

Na manhã seguinte, antes de todos acordarem, deixei uma carta na mesa da cozinha:

“Rui, Andreia, obrigada por me receberem. Mas preciso de reencontrar-me. Vou para casa da Maria. Espero que um dia percebam o que perdi para vos ajudar. E o que perdi de mim.”

Saí de casa com o coração apertado, mas leve. No comboio para Braga, olhei pela janela e vi o mar afastar-se. Senti uma mistura de tristeza e alívio. Pela primeira vez em muito tempo, estava a escolher por mim.

Quando cheguei a casa da Maria, ela abraçou-me com força. — Estás em casa, Jasmina. Aqui ninguém te vai pedir para limpares nada. Só para seres feliz.

Chorei no ombro dela, lavei a alma. Nos dias seguintes, comecei a redescobrir-me. Voltei a passear, a ler, a rir. Senti-me viva.

O Rui ligou-me, dias depois. — Mãe, porque foste embora?

— Porque precisava de mim, Rui. E tu já não precisavas.

Ele ficou em silêncio. — Desculpa, mãe. Nunca pensei que estivesses tão mal.

— Às vezes, Rui, é preciso perder para perceber o que se tinha.

Agora, sentada na varanda da Maria, olho para o céu e pergunto-me: quantas mães em Portugal vivem assim, esquecidas, caladas, anuladas? Será que é este o destino de quem dá tudo pela família? E vocês, o que fariam no meu lugar?