Todos os Dias a Cozinhar para Pedro: Quando é que Basta?
— Outra vez arroz, Zuzana? — A voz de Pedro ecoou pela cozinha, carregada de desdém, enquanto eu pousava a travessa fumegante na mesa. O cheiro do arroz de pato, que me custara quase uma hora a preparar depois de um dia inteiro no escritório, parecia perder o encanto perante o olhar crítico do meu marido.
— Pedro, fiz ontem uma travessa grande, pensei que podíamos aproveitar hoje — tentei explicar, sentindo o nó na garganta apertar-se. Sabia o que vinha a seguir, já conhecia aquele olhar impaciente.
— Já sabes que não gosto de comer comida requentada. Não percebo porque insistes — respondeu, empurrando o prato para o lado, como se fosse um sacrifício sequer olhar para ele.
Fiquei ali, de pé, com o pano de cozinha ainda na mão, a olhar para o arroz que, de repente, parecia tão sem graça quanto a minha disposição. Senti o cansaço a invadir-me, não só nas pernas, mas em cada pensamento. Todos os dias, a mesma rotina: acordar antes do sol, preparar o pequeno-almoço fresco, sair para o trabalho, correr para casa, inventar um jantar diferente. Tudo para evitar ouvir aquele tom de voz, aquela crítica velada, aquela recusa.
Lembro-me de quando conheci o Pedro, há quase dez anos, numa festa de amigos em comum. Ele era divertido, espontâneo, fazia-me rir com as suas histórias exageradas. Nunca imaginei que, anos depois, a nossa vida se resumiria a discussões sobre comida e silêncios pesados à mesa. No início, até achava graça ao seu paladar exigente, mas agora era só mais uma obrigação, mais uma prova de que nunca era suficiente.
— Se não gostas, faz tu — atirei, sem conseguir controlar o tom. O Pedro olhou-me, surpreendido, como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
— Não percebo porque estás assim. Só pedi uma refeição decente, não é pedir muito — respondeu, levantando-se da mesa e indo sentar-se no sofá, pegando no comando da televisão.
Fiquei ali, sozinha na cozinha, a olhar para a comida que ninguém ia comer. Senti as lágrimas a quererem sair, mas engoli-as. Não valia a pena. Fui arrumar a loiça, como sempre, em silêncio, a pensar em tudo o que tinha de fazer no dia seguinte. O Pedro já nem se dava ao trabalho de ajudar, dizia que era coisa de mulheres, que a mãe dele sempre tratou de tudo. E eu, sem perceber como, fui-me deixando ficar nesse papel.
No trabalho, os colegas perguntam-me muitas vezes porque pareço tão cansada. A Ana, que se senta ao meu lado, já me disse várias vezes para não me deixar ir abaixo, que devia impor mais respeito em casa. Mas como é que se faz isso quando tudo o que queremos é evitar discussões? Quando tudo o que queremos é um pouco de paz?
Os meus pais, lá em Viseu, acham que tenho sorte. “O Pedro tem trabalho, não te falta nada, filha”, diz a minha mãe ao telefone. Mas falta-me, sim. Falta-me tempo para mim, falta-me descanso, falta-me sentir que sou mais do que uma empregada doméstica.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre o jantar — desta vez porque o frango estava “seco” —, sentei-me na varanda, embrulhada numa manta, a olhar para as luzes da cidade. Senti-me tão sozinha, mesmo com o Pedro a poucos metros, a ver futebol na sala. Lembrei-me de como era antes, quando sonhava viajar, aprender línguas, talvez voltar a estudar. Agora, tudo o que faço é cozinhar, limpar, trabalhar, repetir.
Certa manhã, acordei antes do despertador. Fiquei deitada a olhar para o teto, a ouvir o Pedro ressonar ao meu lado. Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim. Porque é que tudo tinha de ser sempre para ele? Porque é que nunca era suficiente? Levantei-me, fui para a cozinha e, pela primeira vez em anos, não preparei o pequeno-almoço. Sentei-me à mesa, com uma chávena de café, e esperei que ele acordasse.
Quando entrou na cozinha, olhou em volta, confuso.
— Não há pequeno-almoço? — perguntou, franzindo o sobrolho.
— Não. Hoje não — respondi, sem levantar os olhos do jornal.
Ele ficou parado, sem saber o que dizer. Senti uma estranha satisfação naquele silêncio. Talvez fosse este o início de uma mudança, pensei. Mas, claro, não foi assim tão simples.
Ao longo das semanas seguintes, as discussões tornaram-se mais frequentes. O Pedro começou a chegar mais tarde a casa, dizia que tinha trabalho, mas eu sabia que era para evitar estar comigo. Eu, por minha vez, comecei a sair mais com a Ana, a ir ao ginásio, a tentar recuperar um pouco de mim própria. Mas cada vez que voltava para casa, sentia o peso da rotina a cair-me em cima outra vez.
Uma noite, depois de um jantar particularmente tenso — fiz massa com atum, ele nem tocou —, sentei-me no sofá e perguntei-lhe, finalmente, aquilo que me andava a consumir há meses:
— Pedro, tu ainda gostas de mim? Ou só gostas de ter alguém que te faça as vontades?
Ele olhou-me, surpreendido, como se nunca lhe tivesse passado pela cabeça aquela pergunta.
— Claro que gosto de ti, Zuzana. Mas tu andas diferente. Sempre a reclamar, sempre cansada. Não era assim antes.
— Não era assim porque antes eu achava que era normal fazer tudo sozinha. Agora percebo que não é justo. Não é justo para mim, nem para nós.
Ele ficou em silêncio, a olhar para a televisão desligada. Eu também não disse mais nada. Ficámos ali, lado a lado, mas tão distantes como nunca.
No dia seguinte, liguei à minha mãe. Contei-lhe tudo, pela primeira vez. Ela ficou calada, depois disse-me:
— Filha, às vezes é preciso bater com o pé. O teu pai também era assim, mas aprendeu. Não te deixes ir abaixo.
As palavras dela ficaram a ecoar-me na cabeça. Talvez fosse isso que faltava: bater com o pé, dizer basta. Mas como se faz isso quando se tem medo de ficar sozinha? Quando se tem medo de magoar quem se ama?
Os dias foram passando, e eu fui tentando pequenas mudanças. Um dia, trouxe comida do restaurante, outra vez deixei o Pedro tratar do jantar. Ele resmungou, mas acabou por se desenrascar. Aos poucos, fui percebendo que o mundo não acabava se eu não fizesse tudo. Que eu também tinha direito ao meu tempo, ao meu descanso, aos meus sonhos.
Mas nem tudo foi fácil. Houve dias em que me senti egoísta, em que o Pedro me acusou de estar a mudar, de já não ser a mesma mulher com quem casou. E talvez tivesse razão. Talvez eu estivesse mesmo a mudar. Mas era uma mudança necessária, uma mudança para sobreviver.
Hoje, olho para trás e vejo o quanto me anulei durante anos. Vejo o quanto deixei que as vontades dos outros fossem mais importantes do que as minhas. Mas também vejo a força que ganhei, a coragem de dizer não, de exigir respeito.
Ainda cozinho para o Pedro, às vezes. Mas já não todos os dias. E, quando ele reclama, já não me sinto culpada. Sei que mereço mais, que mereço ser feliz.
Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres vivem assim, presas numa rotina que não escolheram, a sacrificar-se em silêncio? E vocês, já sentiram que estavam a perder quem eram, só para agradar aos outros? O que fariam no meu lugar?