Baka, perdoa-me por me ter esquecido de ti

— Ivone, desculpa meter-me, mas a tua avó… já não a vejo sair há dias. E ouvi dizer que não tem comido. — A voz da Dona Amélia, a vizinha do terceiro esquerdo, ecoou-me nos ouvidos como uma sentença. Fiquei ali, parada, com o saco das compras a escorregar-me da mão, o coração a bater descompassado. Como é que deixei isto acontecer?

A minha avó, a Dona Rosa, sempre foi a fortaleza da família. Depois da morte do meu avô, foi ela que segurou tudo, que nos manteve juntos, mesmo quando os meus pais se separaram e cada um foi para seu lado. Eu cresci entre as suas histórias de infância, os bolos de laranja e as tardes de verão no quintal. Mas, nos últimos anos, entre o trabalho no hospital, as discussões com o meu irmão Rui e a minha própria família a desmoronar-se, fui deixando de passar por lá. Sempre havia uma desculpa: o turno extra, o trânsito, a escola da minha filha Mariana, o cansaço. E agora, a Dona Amélia vinha dizer-me que a minha avó estava sozinha, sem comer?

Corri para casa dela, o coração a saltar-me do peito. Toquei à campainha, uma, duas, três vezes. Nada. Peguei na chave suplente, que ela me dera há anos, e entrei. O cheiro a mofo e a sopa azeda encheu-me as narinas. Encontrei-a sentada na poltrona, de olhar perdido na televisão desligada. Estava magra, mais do que me lembrava, e os olhos, outrora vivos, pareciam agora poços de tristeza.

— Avó… — A minha voz saiu trémula. — Porque não me disseste nada?

Ela olhou para mim, demorando a reconhecer-me. — Não quis incomodar, filha. Sei que tens a tua vida. — O tom era resignado, quase um sussurro.

Senti uma raiva surda, não dela, mas de mim própria. Como é que deixei isto acontecer? Sentei-me ao lado dela, peguei-lhe na mão. Estava fria, frágil. — Nunca és um incómodo, avó. Nunca. — Mas sabia que era mentira. Nos últimos tempos, tudo era um incómodo: as chamadas dela, os pedidos para ir buscar pão, as histórias repetidas. Tudo me pesava.

Fui à cozinha, preparei-lhe uma canja, forcei-a a comer. Ela mastigava devagar, como se cada colherada fosse uma batalha. — O Rui não tem vindo cá? — perguntei, já sabendo a resposta.

— O Rui tem a vida dele, filha. Não te zangues com ele. — Sempre a proteger-nos, mesmo agora.

Quando saí de lá, liguei-lhe. — Rui, a avó está mal. Não tem comido, está sozinha. — O silêncio do outro lado foi ensurdecedor.

— Não posso agora, Ivone. Tenho o miúdo doente, a Andreia está a trabalhar. — A voz dele era cansada, defensiva.

— E eu? Achas que não tenho problemas? — explodi. — Somos só nós os dois, Rui! Não podemos deixá-la assim!

— Faz o que quiseres, Ivone. Eu não posso. — E desligou.

Chorei no carro, sozinha, com a cabeça encostada ao volante. Lembrei-me de quando éramos pequenos e a avó nos levava ao parque, de como ela nos fazia rir, de como nos defendia dos gritos dos nossos pais. Agora, éramos nós a falhar-lhe.

Nos dias seguintes, tentei organizar a minha vida para passar por casa dela todos os dias. Levava-lhe comida, sentava-me com ela, ouvia as mesmas histórias. Mas a culpa não me largava. Mariana, a minha filha, começou a queixar-se. — Mãe, nunca estás em casa. — O meu marido, António, também. — Isto não pode continuar assim, Ivone. Não podes carregar o mundo às costas.

— E se fosses tu? — gritei-lhe um dia, exausta. — E se fosse a tua mãe? Ias deixá-la sozinha?

— Não é isso, mas tens de pensar em nós também. — Ele virou-me as costas, magoado.

A tensão em casa aumentava. Mariana fechava-se no quarto, António saía mais cedo, chegava mais tarde. Eu sentia-me a desmoronar. No hospital, comecei a cometer erros. Uma vez, quase dei a medicação errada a um doente. A chefe chamou-me ao gabinete.

— Ivone, o que se passa contigo? — perguntou, olhando-me nos olhos.

— É a minha avó… está sozinha, não come, não tem ninguém. — A voz saiu-me embargada.

— Tens de pedir ajuda, Ivone. Não podes fazer tudo sozinha. — Mas a quem? O Rui não queria saber, o António estava farto, a Mariana zangada. Senti-me mais sozinha do que nunca.

Uma noite, depois de deitar a minha avó, sentei-me na varanda dela, a olhar para as luzes da cidade. O telefone tocou. Era o meu pai, que vivia em França há anos, desde que se separou da minha mãe.

— Ivone, a Dona Amélia ligou-me. O que se passa com a tua avó?

— O que se passa? — ri-me, amarga. — O que se passa é que ela está sozinha, pai. E nós deixámo-la assim.

— Eu não posso voltar agora, filha. O trabalho… — Sempre o trabalho, sempre as desculpas.

— Não te preocupes, pai. Eu trato de tudo. — Desliguei antes que ele pudesse responder.

Na semana seguinte, tentei convencer a avó a aceitar uma senhora para a ajudar em casa. — Não preciso de ninguém, filha. Só preciso de vocês. — Mas nós não estávamos lá. Eu não estava lá. O Rui não estava lá. O meu pai estava longe. A minha mãe, perdida nos próprios problemas.

Uma tarde, Mariana apareceu em casa da avó, de surpresa. — Vim ajudar, mãe. — Senti um nó na garganta. Vi-a a pentear o cabelo da bisavó, a ouvir as histórias dela, a rir-se. Pela primeira vez em semanas, senti esperança.

Mas a tensão em casa não desaparecia. António acusava-me de o abandonar, Mariana oscilava entre a compreensão e a raiva. O Rui continuava ausente. Uma noite, depois de uma discussão particularmente feia, António fez as malas.

— Não aguento mais, Ivone. Ou escolhes a tua família, ou a tua avó. — Fiquei ali, a olhar para ele, sem saber o que dizer. Como é que se escolhe entre quem nos criou e quem criámos?

A avó piorava. Começou a confundir os dias, a esquecer-se de quem era. Levei-a ao médico, que me disse o que eu já sabia: demência. — Vai precisar de cuidados constantes, Ivone. — Olhei para ele, desesperada. — Eu não consigo, doutor. Não consigo sozinha.

O Rui apareceu no hospital, finalmente. — Desculpa, mana. — Abraçou-me, e chorei no ombro dele como quando éramos crianças. — Vamos fazer isto juntos, prometo.

Começámos a revezar-nos. O Rui levava-lhe o pequeno-almoço, eu o almoço, a Mariana ia lá depois da escola. António voltou para casa, mas a distância entre nós era palpável. A avó foi piorando, até que um dia, simplesmente, deixou de acordar.

O funeral foi pequeno, só a família e alguns vizinhos. No final, a Dona Amélia abraçou-me. — Fizeste tudo o que podias, Ivone. — Mas será que fiz? Será que não podia ter feito mais?

Agora, sento-me muitas vezes na varanda da casa da avó, a olhar para o quintal vazio. Penso em tudo o que ficou por dizer, por fazer. Penso na Mariana, no Rui, no António. Penso em todas as famílias que, como a minha, se perdem no meio da correria, do cansaço, das desculpas.

Pergunto-me: quantos de nós deixamos para amanhã o abraço, a visita, a chamada? Quantos de nós só percebemos o que perdemos quando já é tarde demais? E vocês, o que fariam diferente?