Quando o Amor se Perde Entre Lutos: A Minha Vida com Rui
— Não podes jantar connosco hoje outra vez, Rui? — perguntei, tentando esconder o tremor na minha voz enquanto punha a mesa para quatro, embora já soubesse que seríamos apenas três.
Ele nem olhou para mim. Estava de costas, a mexer no telemóvel, provavelmente a combinar mais uma visita à casa da Ana, a viúva do irmão dele. — Não posso, Mariana. Eles precisam de mim. O Tomás está com febre e a Ana não sabe o que fazer. — A voz dele era seca, quase impaciente.
Senti um nó apertar-me o peito. O Tomás era o nosso sobrinho, claro, mas e os nossos filhos? E eu? Desde que o Pedro morreu naquele acidente de carro, há seis meses, Rui transformou-se noutra pessoa. No início compreendi. O choque, o luto, a necessidade de apoiar a família do irmão. Mas agora… agora era como se eu tivesse desaparecido.
— E nós? — arrisquei, baixinho. — Os teus filhos também precisam de ti. Eu preciso de ti.
Ele suspirou, finalmente virando-se para mim. — Mariana, por favor. Não compliques. Isto não é sobre ti.
As palavras dele cortaram-me como uma lâmina. Fiquei ali parada, a olhar para as mãos vazias, enquanto ele saía apressado pela porta. Os miúdos vieram à cozinha, olhos baixos, já habituados à ausência do pai à mesa.
— O pai vai outra vez para casa da tia Ana? — perguntou a Leonor, com apenas oito anos mas já com uma maturidade triste no olhar.
— Vai, filha. — Tentei sorrir-lhe, mas a minha voz falhou.
Jantámos em silêncio. Depois deitei-os e fiquei sozinha na sala, a ouvir o eco dos meus próprios pensamentos. Lembrei-me do Rui antes disto tudo: ríamos juntos, fazíamos planos para as férias, discutíamos sobre coisas pequenas e reconciliávamo-nos logo a seguir. Agora era como se vivêssemos em casas diferentes, mesmo debaixo do mesmo teto.
Os dias passaram todos iguais. Rui saía cedo para ir trabalhar e depois ia direto para casa da Ana. Às vezes nem voltava para jantar. Quando vinha, estava ausente, cansado, irritadiço. Eu tentava conversar com ele à noite, mas ele limitava-se a dizer que estava exausto e virava-se para o lado na cama.
Uma noite ganhei coragem e sentei-me ao lado dele na sala.
— Rui, precisamos de falar.
Ele olhou-me com impaciência. — O que foi agora?
— Isto não pode continuar assim. Eu compreendo que queiras ajudar a Ana e os miúdos, mas nós também somos tua família. Sinto-me sozinha nesta casa. Os teus filhos sentem a tua falta.
Ele levantou-se abruptamente. — Achas que isto é fácil para mim? Achas que eu queria que o meu irmão morresse? Que eu queria esta responsabilidade toda? A Ana está sozinha! Os miúdos perderam o pai! Não posso simplesmente virar-lhes as costas!
— E nós? — perguntei de novo, sentindo as lágrimas a subir-me aos olhos. — Nós também precisamos de ti! Eu estou a perder-te!
Ele abanou a cabeça e saiu da sala sem dizer mais nada.
Nessa noite chorei baixinho na almofada para não acordar as crianças. Senti-me egoísta por querer o meu marido só para mim quando sabia que a cunhada estava a passar por um inferno ainda maior. Mas também sentia raiva por ele me ter deixado sozinha com tudo: os miúdos, a casa, as contas… e o vazio.
No dia seguinte fui buscar os miúdos à escola e encontrei a Ana à porta da escola primária. Estava pálida e magra, com olheiras fundas.
— Olá Mariana… — disse ela, hesitante.
— Olá Ana…
Ficámos ali em silêncio durante uns segundos embaraçosos.
— O Rui tem sido incrível… — disse ela finalmente. — Não sei como teria conseguido sem ele…
Senti uma pontada de culpa misturada com ciúme.
— Pois… — respondi apenas.
Ela olhou-me nos olhos e vi lágrimas a brilhar-lhe nas pestanas.
— Eu não quero ser um peso… Eu sei que ele tem uma família…
— Não és um peso — menti, porque era isso que se dizia nestas situações.
Voltámos cada uma para sua casa, ambas sozinhas apesar de rodeadas de crianças.
Nessa noite decidi falar com a minha mãe. Liguei-lhe já depois de deitar os miúdos.
— Mãe, sinto-me tão perdida… O Rui esqueceu-se de nós…
Ela ouviu-me em silêncio e depois disse:
— Filha, o luto é um buraco negro onde todos caem de maneiras diferentes. Mas não deixes que te arraste contigo. Tens de lutar pelo teu casamento… ou então perceber se ainda vale a pena lutar.
As palavras dela ficaram-me na cabeça durante dias. Comecei a reparar em pequenas coisas: o Rui já não me tocava sequer por engano; evitava olhar-me nos olhos; falava comigo apenas sobre assuntos práticos — contas, horários dos miúdos, recados para fazer.
Uma noite apanhei-o ao telefone na varanda. Falava baixo mas percebi que era com a Ana.
— Não te preocupes… Eu passo aí amanhã cedo antes do trabalho… Sim… Claro… Dorme bem…
Quando entrou em casa viu-me à porta da varanda.
— Estavas a ouvir?
— Não preciso de ouvir para saber onde tens estado todos os dias…
Ele passou por mim sem dizer nada.
No dia seguinte acordei decidida: ia confrontá-lo de frente. Esperei que chegasse do trabalho e sentei-me com ele à mesa da cozinha.
— Rui, isto não pode continuar assim. Ou voltas para nós ou… não sei se consigo continuar nesta relação.
Ele ficou em silêncio durante muito tempo. Depois passou as mãos pelo rosto e murmurou:
— Mariana… eu não sei como sair disto… Sinto-me responsável pela Ana e pelos miúdos… Sinto-me culpado por estar aqui quando o Pedro já cá não está…
— Mas tu ainda me amas? Ainda amas os teus filhos?
Ele olhou-me finalmente nos olhos e vi ali um cansaço imenso.
— Amo-vos… mas sinto-me vazio por dentro…
Nesse momento percebi que talvez já não houvesse volta atrás. Que o luto dele tinha criado um abismo entre nós impossível de atravessar.
Os meses passaram e fui aprendendo a viver sozinha dentro do casamento. Comecei a sair mais com amigas, inscrevi-me num curso de cerâmica, tentei preencher o vazio com outras coisas que não fossem esperar pelo Rui todas as noites.
Um dia ele chegou mais cedo a casa e encontrou-me na sala a rir com os miúdos enquanto pintávamos t-shirts velhas.
Ficou parado à porta durante uns segundos e depois disse:
— Posso juntar-me?
Olhei para ele sem saber se devia deixar ou não. Mas os miúdos gritaram logo “Sim!” e puxaram-no para junto deles.
Nessa noite jantámos juntos pela primeira vez em meses. Foi estranho ao início mas depois rimos todos juntos como antigamente.
No fim da noite ele ficou comigo na sala depois de deitarmos os miúdos.
— Mariana… desculpa por tudo isto… Eu perdi-me no meio da dor…
Abracei-o devagarinho, sem saber se aquele momento era um recomeço ou apenas uma pausa breve antes do regresso ao vazio.
Hoje continuo sem saber se sou egoísta por querer o meu marido só para mim ou se sou apenas humana por precisar dele ao meu lado. Será que é possível reconstruir um casamento depois de tanto silêncio? Ou há dores que nunca nos deixam voltar ao que éramos antes?