O Décimo Filho: Entre Expectativas e Sonhos Esquecidos

— Mariana, já pensaste no que vai ser se for outra rapariga? — A voz da minha sogra ecoou pela cozinha, cortando o silêncio pesado que se instalara desde o pequeno-almoço. O cheiro do café misturava-se com o aroma do pão acabado de sair do forno, mas nada conseguia disfarçar o nervosismo que me apertava o peito.

Baixei os olhos para as mãos, vermelhas de tanto esfregar batatas. Oiço os risos das minhas filhas lá fora, a correrem pelo quintal, alheias ao peso que carrego no ventre e na alma. — Não sei, Dona Emília. Não sei mesmo — murmurei, tentando esconder o tremor na voz.

O António entrou na cozinha nesse instante, largando as botas enlameadas à porta. Olhou-me de relance, depois fixou-se na sogra. — A Mariana tem de dar-me um rapaz desta vez. Já chega de meninas. — Disse isto sem olhar para mim, como se eu fosse apenas uma máquina de filhos, sem vontades nem medos.

Senti uma lágrima ameaçar cair, mas engoli-a com o orgulho que ainda me restava. Ninguém ali queria saber dos meus sonhos antigos — de ser professora, de viajar até Lisboa, de escrever cartas para além das contas do supermercado e das receitas de bacalhau.

A gravidez pesava-me mais do que nunca. Não era só o corpo cansado, era a alma esmagada pelas expectativas. Lembro-me do dia em que casei com o António: tinha 19 anos e acreditava que juntos construiríamos algo bonito. Mas a vida na aldeia é feita de rotinas e silêncios. A cada filha que nasceu, vi nos olhos dele a sombra da desilusão crescer.

— Mariana, não te esqueças de ir buscar água ao poço antes do almoço — disse a minha sogra, já a sair da cozinha. — E vê se as meninas não se sujam todas outra vez.

Fui até à janela e vi as minhas filhas: a Ana a tentar ensinar a Rita a saltar à corda; a Joana sentada na relva a desenhar flores na terra; as gémeas, Marta e Maria, sempre de mãos dadas. Senti um orgulho imenso por elas, mas também uma culpa surda — como se lhes faltasse algo só por não serem rapazes.

À noite, quando todos dormiam, sentava-me à mesa da cozinha com um caderno velho. Escrevia cartas para mim mesma:

“Querida Mariana,

Ainda te lembras de quando sonhavas? Ainda te lembras do cheiro dos livros novos e do som das ondas na praia?”

Mas as cartas ficavam sempre por acabar. O sono vencia-me antes das palavras.

O António começou a chegar mais tarde a casa. Dizia que era o trabalho no campo, mas eu sabia que era vergonha — vergonha dos olhares dos vizinhos, das piadas no café sobre ter só filhas. Uma noite, entrou furioso:

— Sabes o que me disseram hoje? Que sou homem só de saias! Que não sei fazer um rapaz! — Atirou o casaco para cima da cadeira e olhou-me como se eu fosse culpada de tudo.

— António, eu não escolho… — tentei explicar, mas ele virou-me as costas.

— Pois não. Mas parece que só sabes fazer meninas.

Chorei baixinho nessa noite, com medo que as meninas ouvissem. Senti-me sozinha como nunca.

Os meses passaram devagar. Cada consulta no centro de saúde era uma tortura: as perguntas das enfermeiras, os olhares curiosos das outras mulheres.

— Já vai no décimo? Coragem… — diziam algumas.

— Ou falta de juízo — murmuravam outras.

Só a Dona Rosa, a vizinha do lado, me sorria com ternura:

— Mariana, cada criança é uma bênção. Não deixes ninguém fazer-te sentir menos mulher por isso.

Mas era difícil acreditar quando todos à minha volta esperavam outra coisa de mim.

No oitavo mês, tive uma discussão feia com o António. Ele queria saber se eu tinha ido à bruxa da aldeia para garantir um rapaz. Fiquei chocada:

— Achas mesmo que eu fazia uma coisa dessas? Não chega tudo o que faço aqui em casa?

Ele calou-se, mas vi nos olhos dele uma raiva surda — não contra mim, mas contra o destino.

Na noite em que entrei em trabalho de parto, chovia torrencialmente. As meninas estavam assustadas; a minha sogra rezava baixinho no canto da sala. O António levou-me ao hospital em silêncio.

Horas depois, ouvi o choro do bebé. O médico sorriu:

— Parabéns, Mariana. É uma menina saudável.

Senti um alívio estranho misturado com tristeza. Sabia o que me esperava em casa.

Quando o António entrou no quarto do hospital e viu a bebé nos meus braços, ficou calado durante minutos eternos. Depois saiu sem dizer palavra.

A minha sogra veio visitar-me dois dias depois. Olhou para a bebé e suspirou:

— Mais uma boca para alimentar…

Eu olhei para a minha filha e prometi-lhe em silêncio: “Não vou deixar que te sintas menos só porque esperavam outra coisa de ti.”

Os dias seguintes foram duros. O António mal falava comigo; as meninas sentiam o ambiente pesado em casa. Uma noite, sentei-me com elas à mesa e perguntei:

— Vocês sabem que são tudo para mim?

A Ana respondeu:

— Mãe, tu és a melhor mãe do mundo. Não ligues ao pai nem à avó.

Chorei ali mesmo, abraçada às minhas filhas.

Com o tempo, percebi que precisava de encontrar algo só meu. Comecei a escrever histórias para as meninas antes de dormir — contos sobre princesas corajosas e mães aventureiras que viajavam pelo mundo.

Um dia, mostrei um desses contos à Dona Rosa. Ela leu e sorriu:

— Mariana, tens talento! Devias mostrar isto ao padre Luís; ele pode ajudar-te a publicar no jornal da paróquia.

Pela primeira vez em anos senti esperança.

O António continuou distante durante meses. Só quando adoeceu é que me pediu desculpa:

— Fui injusto contigo… Perdoa-me?

Apertei-lhe a mão e chorei em silêncio. Sabia que nunca teria o reconhecimento da sogra ou dos vizinhos, mas ali estava eu — inteira, mãe de dez meninas maravilhosas e dona dos meus próprios sonhos.

Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas mulheres vivem presas às expectativas dos outros? Quantas deixam os seus sonhos morrerem em silêncio? E vocês — já sentiram este peso? Partilhem comigo.