Depois de Dez Filhas: Esperanças e Desilusões de uma Mãe Portuguesa

— Maria, já pensaste no nome se for rapaz? — perguntou-me a minha sogra, Dona Amélia, enquanto mexia o caldo verde ao lume, o olhar fixo em mim como se pudesse adivinhar o futuro só pelo meu rosto cansado.

Senti o peso da pergunta como uma pedra no peito. O silêncio da cozinha, apenas interrompido pelo borbulhar da sopa, tornou-se insuportável. As minhas nove filhas brincavam no quintal, as vozes delas misturando-se com o chilrear dos pardais. Senti uma pontada de culpa e raiva — culpa por não lhes dar o valor que mereciam aos olhos dos outros, raiva por todos esperarem de mim aquilo que não posso controlar.

— Ainda não pensei, mãe. — respondi, tentando sorrir. — O que vier, será bem-vindo.

Ela suspirou, desapontada, e abanou a cabeça. — O teu António precisa de um rapaz. Já chega de meninas nesta casa. — O tom dela era duro, mas havia também um certo cansaço, como se ela própria já tivesse perdido a esperança.

O António, meu marido, entrou na cozinha nesse momento, as botas sujas de terra e o rosto marcado pelo sol. Olhou para mim, depois para a mãe, e sem dizer palavra, pegou num pedaço de pão e saiu. O silêncio dele doía mais do que qualquer palavra. Era como se a cada filha que eu dava à luz, um pedaço do sonho dele morresse.

À noite, deitada ao lado dele, tentei puxar conversa. — Achas que desta vez vai ser diferente?

Ele virou-se para o lado, sem me olhar. — Não sei, Maria. Só sei que já não aguento os olhares do povo. Toda a gente a perguntar quando é que chega o rapaz. — A voz dele era baixa, quase um sussurro, mas cada palavra era uma faca.

Fechei os olhos, sentindo as lágrimas a escorrerem pela almofada. Lembrei-me do dia em que nos casámos, tão jovens, tão cheios de sonhos. Nunca pensei que o amor pudesse ser assim tão pesado, tão cheio de expectativas e de silêncios.

No dia seguinte, fui à mercearia buscar pão e leite. A Dona Rosa, sempre curiosa, não perdeu tempo:

— Então, Maria, já sabes o que é? Dizem que quem tem muitos enjôos é porque vem rapaz.

Sorri, sem vontade. — Não sei, Dona Rosa. O médico só diz que está tudo bem.

Ela abanou a cabeça, como quem não acredita. — Olha que o teu António merece um rapaz. As meninas são boas, mas um rapaz é que é preciso para ajudar no campo, para continuar o nome da família.

Senti-me pequena, invisível. Como se tudo o que eu já tinha feito — as noites sem dormir, as febres, as preocupações, o amor que dava às minhas filhas — não valesse nada se não lhes desse um rapaz.

Em casa, as minhas filhas ajudavam-me como podiam. A mais velha, a Catarina, já com catorze anos, era o meu braço direito. — Mãe, deixa que eu trato do jantar hoje. Vai descansar um bocadinho. — O olhar dela era doce, mas também cansado. Tinha crescido depressa demais, obrigada a ser adulta antes do tempo.

Às vezes, à noite, ouvia as minhas filhas a conversar no quarto. — Achas que a mãe vai ficar triste se for outra menina? — perguntava a Beatriz, a terceira.

— Não, a mãe gosta de nós todas. Mas o pai… — respondia a Inês, a segunda.

Ouvia-as em silêncio, o coração apertado. Queria protegê-las de tudo, até das minhas próprias dores.

Os meses foram passando, cada vez mais pesados. As dores nas costas, o cansaço, a ansiedade. O António falava cada vez menos comigo. Passava mais tempo no campo, calado, a trabalhar até ao anoitecer. Às vezes, sentia que já não éramos um casal, mas dois estranhos a viver na mesma casa, unidos apenas pelas crianças e pelo peso do que não era dito.

Uma tarde, a minha mãe veio visitar-me. Sentou-se comigo na varanda, as mãos enrugadas pousadas no meu colo.

— Maria, não deixes que te roubem a alegria. Eu também tive só filhas, lembras-te? E olha para ti, mulher forte, mãe dedicada. Não deixes que te façam sentir menos por isso.

Chorei no colo dela, como uma criança. — Mas mãe, eu só queria que o António ficasse feliz. Só queria que as minhas filhas fossem amadas como merecem.

Ela acariciou-me o cabelo. — O amor não se mede pelo sexo dos filhos. Quem não vê isso é cego.

No dia do parto, a casa estava cheia de nervosismo. O António não disse uma palavra durante toda a manhã. As minhas filhas esperavam na sala, de mãos dadas, os olhos cheios de esperança e medo.

Quando finalmente ouvi o choro do bebé, o meu coração parou por um segundo. A parteira sorriu-me, cansada, e disse:

— Parabéns, Maria. É uma menina.

O silêncio foi absoluto. Senti o mundo a desabar, mas ao olhar para aquele pequeno rosto, tão perfeito, soube que a amaria com todas as forças do meu ser.

O António entrou no quarto, olhou para mim e para a bebé. Vi nos olhos dele a decepção, mas também um cansaço profundo. Sentou-se ao meu lado, pegou na mão da filha e, pela primeira vez em muito tempo, chorou.

— Desculpa, Maria. Eu só queria… — a voz dele falhou.

— Eu sei, António. Eu sei. — respondi, apertando-lhe a mão.

As minhas filhas entraram no quarto, rodearam-me, abraçaram-me. Senti-me, finalmente, completa. Não pelo filho que todos esperavam, mas pelas filhas que tinha. Olhei para o António, para a minha mãe, para as minhas filhas, e percebi que a felicidade não depende do que os outros esperam de nós, mas do que somos capazes de dar e receber.

Hoje, olho para as minhas dez filhas e pergunto-me: quantas mulheres terão de nascer até que o mundo aprenda a valorizar cada vida, independentemente do sexo? Será que um dia vamos conseguir amar sem condições, sem expectativas, apenas porque sim?