Fome da Vizinha – Infância à Sombra do Silêncio e da Pobreza
— Mãe, por que a Olívia está sempre com fome? — perguntei num sussurro, enquanto via a menina do outro lado da rua, sentada no degrau da porta, a olhar para o chão como se procurasse migalhas invisíveis. A minha mãe não respondeu. Limitou-se a apertar os lábios, a continuar a descascar batatas para o jantar, e eu percebi, mesmo sem entender, que havia perguntas que não se faziam em voz alta naquela casa.
Naquele verão de 1998, o bairro de Chelas parecia um mundo à parte. As ruas cheiravam a roupa lavada e a fritos, mas também a humidade e a paredes velhas. Eu tinha oito anos e achava que a vida era igual para todos, até perceber que não era. Olívia era a minha vizinha do lado, dois anos mais velha, mas parecia mais pequena, sempre com as roupas largas, o cabelo preso num rabo de cavalo desalinhado e os olhos fundos, atentos a tudo e a todos.
Lembro-me de um dia em particular, quando a minha mãe me mandou levar um prato de sopa à Dona Amélia, a nossa vizinha idosa. Passei pela porta da Olívia e ouvi vozes. O pai dela, o Senhor Joaquim, gritava:
— Não há mais nada para comer, Olívia! Já disse! Se tens fome, bebe água!
O silêncio que se seguiu foi tão pesado que até o meu coração pareceu parar. Olívia não respondeu. Só ouvi o som de um prato a bater na mesa, depois passos apressados. Fiquei ali, parada, com o prato de sopa a tremer nas mãos, a sentir uma vergonha que não era minha, mas que me queimava por dentro.
Na escola, Olívia era a última a sair do refeitório. Esperava que todos acabassem para, às vezes, pedir os restos. Os outros miúdos riam-se dela, chamavam-lhe “Olívia Esfomeada”. Eu nunca me juntei a eles, mas também nunca a defendi. Tinha medo de ser a próxima a ser gozada, medo de ser diferente. O silêncio era a minha proteção, mas também a minha prisão.
Uma tarde, depois das aulas, encontrei Olívia sentada no parque, a mexer na terra com um pau. Sentei-me ao lado dela, sem dizer nada. Ela olhou para mim, os olhos brilhantes de lágrimas que não caíam.
— Sabes o que é pior do que ter fome? — perguntou, a voz rouca.
Abanei a cabeça.
— É fingir que não se tem. É ver toda a gente a fingir que não vê. — Ela suspirou, e nesse momento percebi que a fome não era só de comida, era de atenção, de carinho, de alguém que dissesse: “Eu vejo-te”.
Naquela noite, não consegui dormir. Ouvia os gritos do Senhor Joaquim na minha cabeça, via o rosto magro da Olívia, sentia o peso do silêncio da minha mãe. No dia seguinte, roubei um pão da cozinha e escondi-o na mochila. No recreio, aproximei-me da Olívia e entreguei-lhe o pão, sem dizer nada. Ela olhou para mim, surpresa, e depois sorriu. Foi um sorriso pequeno, tímido, mas foi a primeira vez que a vi sorrir.
A partir desse dia, comecei a levar-lhe comida sempre que podia. Às vezes, era só uma maçã, outras vezes um pedaço de queijo ou um iogurte. Nunca falávamos sobre isso. Era o nosso segredo. Mas, mesmo assim, sentia que não era suficiente. A fome da Olívia era maior do que o que eu podia dar.
Os adultos continuavam a fingir que não viam. A minha mãe, quando percebeu que eu andava a dar comida à Olívia, ficou furiosa.
— Não te metas na vida dos outros! — ralhou. — Cada um sabe de si. Não somos ricos para alimentar a vizinhança toda!
Chorei no meu quarto, sentindo-me impotente e revoltada. Como podia a minha mãe, que sempre me ensinou a partilhar, agora dizer-me para virar as costas? Comecei a perceber que os adultos também tinham medo. Medo de se envolver, medo de admitir que havia pobreza mesmo ao lado, medo de que a miséria dos outros lhes batesse à porta.
O tempo passou, e a situação da Olívia piorou. O pai perdeu o emprego, a mãe adoeceu. Houve dias em que não a vi na escola. Quando voltava, vinha mais magra, mais calada. Um dia, apareceu com um olho negro. Disse que tinha caído, mas eu sabia que era mentira. O silêncio, esse monstro invisível, continuava a crescer entre nós.
No Natal desse ano, a escola organizou uma recolha de alimentos para as famílias carenciadas. Vi a Olívia na fila, com a mãe, a receber um cabaz. Senti uma mistura de alívio e vergonha. Alívio por saber que, pelo menos naquele dia, não ia passar fome. Vergonha por perceber que era preciso uma ocasião especial para que alguém se lembrasse dela.
Aos poucos, Olívia foi desaparecendo da minha vida. Mudou-se para outra cidade, disseram-me. Nunca mais a vi. Mas a imagem dela, sentada no degrau da porta, a olhar para o chão, ficou gravada em mim como uma ferida aberta.
Hoje, já adulta, olho para trás e pergunto-me se poderia ter feito mais. Se o meu silêncio, o silêncio da minha mãe, dos vizinhos, dos professores, não foi tão cruel quanto a indiferença. Pergunto-me quantas Olívias continuam a existir, escondidas atrás de portas fechadas, à espera que alguém as veja.
Será que o silêncio é mesmo uma forma de proteção, ou é apenas uma desculpa para não enfrentarmos a dor dos outros? E se todos nós falássemos, se todos nós víssemos, será que o mundo seria diferente?