Sete Noites em Claro: Como o Meu Marido se Tornou um Estranho

— Vais mesmo sair assim, Rui? Vais deixar-me aqui, sozinha, com a Lana? — perguntei-lhe, a voz a tremer, enquanto ele enfiava a roupa à pressa na mala.

Ele não respondeu. Limitou-se a fechar o fecho da mala com um estalido seco, como se aquilo fosse o ponto final de uma frase que eu não queria ouvir. O olhar dele, vazio, evitava o meu. Senti um nó na garganta, mas não chorei. Não na frente dele. Não lhe ia dar esse poder.

A porta bateu atrás dele e o silêncio caiu sobre a casa como um manto pesado. Fiquei ali, parada no corredor, a ouvir o eco dos meus próprios pensamentos. A Lana, com os seus cinco anos, apareceu à porta do quarto, esfregando os olhos.

— A mamã está triste? — perguntou, baixinho.

Ajoelhei-me e abracei-a com força. — Não, meu amor. Só estou cansada. Vamos dormir, está bem?

Mas não dormi. Não naquela noite, nem nas seis seguintes. O relógio da sala marcava as horas com uma precisão cruel, cada tic-tac a lembrar-me de que ele não voltava, de que não ligava, de que não respondia às minhas mensagens. A Lana perguntava por ele todas as manhãs. Eu inventava desculpas: “O papá foi ajudar os avós”, “O papá está a trabalhar muito”. Mas ela não era parva. Via nos meus olhos a verdade que eu tentava esconder.

A minha mãe vinha cá todos os dias, trazendo sopa e palavras de consolo. Sentava-se à mesa, olhava para mim com aquele olhar de quem já viu demasiado na vida.

— O Rui está só cansado, filha. Os homens às vezes não aguentam a pressão. Dá-lhe tempo.

Mas eu sentia que era mais do que isso. Havia um vazio entre nós há meses, um silêncio desconfortável que se instalou depois daquela discussão sobre dinheiro, sobre o trabalho dele, sobre os meus horários, sobre tudo e sobre nada. Ele começou a chegar mais tarde, a evitar conversas, a olhar para mim como se eu fosse uma estranha.

Na terceira noite sem dormir, sentei-me na varanda, embrulhada num cobertor, a olhar para as luzes da cidade. O telefone na mão, os dedos a deslizar pelo ecrã, a reler as últimas mensagens que trocámos. “Preciso de espaço”, escreveu ele. “Não sei o que quero.”

Lembrei-me do início, quando tudo era fácil. Os passeios à beira-rio, as tardes de domingo no jardim, a forma como ele me fazia rir. Onde é que isso se perdeu? Em que momento é que deixámos de ser nós para sermos apenas dois estranhos a partilhar o mesmo teto?

No quarto dia, a Lana fez birra para ir à escola. Chorou, gritou, atirou os brinquedos ao chão. Eu perdi a paciência e gritei também. Depois, sentei-me no chão da cozinha a chorar, sentindo-me a pior mãe do mundo. A minha mãe apareceu nesse momento, abraçou-me e disse:

— Não te culpes, filha. Isto não é culpa tua.

Mas era difícil acreditar. Comecei a duvidar de tudo: das minhas escolhas, do meu valor, do meu casamento. Será que fui demasiado exigente? Será que o pressionei demais? Ou será que ele simplesmente se cansou de mim?

Na quinta noite, ouvi um barulho na rua. Corri à janela, o coração aos pulos, mas era só o vizinho a chegar do trabalho. Senti-me ridícula. Voltei para a cama, mas o sono não veio. Fiquei a olhar para o teto, a pensar em todas as conversas que nunca tivemos, em todas as palavras que ficaram por dizer.

No dia seguinte, decidi ligar-lhe. O telefone tocou, tocou, até cair no voicemail. Deixei uma mensagem curta:

— Rui, precisamos de falar. A Lana sente a tua falta. Eu também.

Esperei o dia todo por uma resposta. Nada. A Lana desenhou um boneco com três pessoas de mãos dadas. Mostrou-mo, orgulhosa.

— É a nossa família, mamã. O papá vai voltar, não vai?

Sorri, mas por dentro senti o coração a partir-se mais um bocadinho.

Na sexta noite, sonhei com ele. Sonhei que voltava para casa, que me abraçava, que dizia que tudo ia ficar bem. Acordei com lágrimas nos olhos. Fui ao quarto da Lana, sentei-me na beira da cama dela e fiquei a vê-la dormir. Tão pequena, tão inocente, tão alheia ao peso do mundo dos adultos.

No sétimo dia, a minha mãe trouxe-me um bolo de laranja, como fazia quando eu era miúda. Sentámo-nos as duas na cozinha, em silêncio. Finalmente, ela disse:

— Tens de decidir o que queres fazer, filha. Não podes ficar assim à espera. Tens de pensar em ti, na Lana.

Olhei para ela, para as mãos dela enrugadas, para os olhos cansados. Pensei em tudo o que ela sacrificou por mim, em como sempre foi forte, mesmo quando o meu pai a deixou. Será que eu tinha essa força?

Nessa noite, sentei-me à mesa com um caderno e uma caneta. Escrevi uma carta ao Rui. Não sabia se ele a ia ler, mas precisava de deitar cá para fora tudo o que sentia.

“Rui,

Não sei onde estás, nem o que pensas. Não sei se ainda me amas, se ainda queres esta família. Mas eu estou cansada de esperar, de viver nesta incerteza. A Lana precisa de ti, mas eu também preciso de saber se ainda somos nós, ou se já não há nada a salvar.

Se quiseres voltar, estou aqui. Mas se decidiste que o nosso caminho acabou, diz-me. Não me deixes nesta escuridão. Merecemos todos uma resposta.”

Dobrei a carta, guardei-a na gaveta. Não tive coragem de lha enviar. Talvez amanhã, pensei. Talvez amanhã tenha coragem.

Agora, sentada na sala, com a Lana a dormir no quarto ao lado, o silêncio parece menos pesado. Talvez porque finalmente disse a verdade, mesmo que só a mim mesma. Talvez porque percebi que, por mais que doa, tenho de seguir em frente, por mim e pela minha filha.

Pergunto-me: quantas mulheres estarão agora, como eu, à espera de uma resposta que talvez nunca venha? E se a resposta não vier, será que conseguimos encontrar a força para recomeçar?