Porque o Meu Marido Compara a Minha Comida com a das Outras? Uma Noite que Mudou Tudo
— Outra vez arroz de pato, Sofia? — O tom do Rui cortou o silêncio da sala, misturando-se com o som da chuva a bater nos vidros. — A Magda faz um bacalhau com natas que é de comer e chorar por mais. Devias pedir-lhe a receita.
Senti o sangue a subir-me ao rosto, as mãos a tremerem enquanto pousava a travessa na mesa. O cheiro do arroz de pato, que tantas vezes me reconfortou, agora parecia enjoativo. — Se gostas tanto da comida da Magda, porque não vais jantar lá? — respondi, a voz mais aguda do que queria.
O Rui olhou-me, surpreso com a minha resposta. — Não é isso, Sofia. Só acho que podias variar um bocadinho. Não leves a mal, mas a comida dela tem outro sabor. É mais… caseira.
As palavras dele espetaram-se em mim como agulhas. Lembrei-me da minha mãe, sempre a dizer que o segredo de um bom casamento era manter o marido satisfeito à mesa. Mas a minha mãe também me ensinou a nunca aceitar menos do que mereço. E naquele momento, sentia-me pequena, invisível, como se todo o esforço que fazia não valesse nada.
— Sabes, Rui, às vezes penso que nunca estás satisfeito. Se não é a comida, é a roupa, ou a maneira como arrumo a casa. — A minha voz tremia, mas continuei. — Não sou a Magda, nem quero ser.
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. — Não compliques, Sofia. Só queria um jantar diferente, não é preciso fazeres um drama.
Mas para mim era um drama. Era o culminar de anos de pequenas comparações, de olhares de desdém quando algo não corria como ele queria. Lembrei-me do nosso primeiro jantar juntos, quando ele elogiou o meu bacalhau à Brás e disse que nunca tinha comido nada assim. Onde estava esse Rui?
O silêncio instalou-se entre nós, pesado. Oiço o relógio da cozinha a marcar os segundos, cada tic-tac mais alto. Sento-me à mesa, mas não consigo comer. O Rui serve-se, mastiga em silêncio, sem olhar para mim. Sinto as lágrimas a quererem cair, mas engulo-as com dificuldade.
Depois do jantar, recolho os pratos em silêncio. O Rui vai para a sala ver televisão, como se nada se tivesse passado. Eu fico na cozinha, a lavar a loiça, as mãos a arder na água quente. Penso na Magda, na sua casa sempre impecável, nos jantares que organiza para o grupo do Rui. Penso em como ela parece perfeita, sempre sorridente, sempre pronta a agradar. E penso em mim, cansada, desmotivada, a tentar equilibrar o trabalho, a casa, o casamento.
Naquela noite, não consigo dormir. Oiço o Rui a ressonar ao meu lado, indiferente à tempestade que me vai na alma. Levanto-me, vou até à sala e sento-me no sofá, abraçada às pernas. Oiço a chuva a cair lá fora e lembro-me da minha infância, dos serões passados na cozinha da minha avó, do cheiro a canela e limão, das histórias que ela contava enquanto mexia o arroz doce. Lembro-me de como a comida era um gesto de amor, não uma competição.
No dia seguinte, acordo com os olhos inchados. O Rui já saiu para o trabalho. Na mesa da cozinha, um bilhete: “Não te esqueças de comprar pão. Jantar na casa do João amanhã. Beijos, Rui.” Sinto um aperto no peito. Mais um jantar na casa do João, mais uma noite a ouvir elogios à Magda.
No trabalho, não consigo concentrar-me. A minha colega, a Ana, percebe que algo não está bem. — Estás com um ar péssimo, Sofia. O que se passa?
— É o Rui… — começo, mas as palavras ficam-me presas na garganta. — Ele está sempre a comparar-me com a Magda. Até a comida dela é melhor do que a minha.
A Ana sorri com tristeza. — Os homens às vezes não percebem o mal que fazem com essas coisas. Mas tu não tens de ser igual a ninguém. És a Sofia, e isso devia bastar.
As palavras dela confortam-me, mas a ferida continua aberta. Quando chego a casa, decido que não vou ao jantar. Não quero passar mais uma noite a sentir-me inferior. Quando o Rui chega, digo-lhe:
— Não vou ao jantar amanhã. Preciso de um tempo para mim.
Ele olha-me, surpreendido. — Estás a exagerar, Sofia. Vais deixar-me ir sozinho?
— Preciso de pensar no que quero para mim. Não posso continuar a viver à sombra das tuas comparações.
Ele não responde. Sai da cozinha, bate com a porta do quarto. Fico sozinha, o coração aos pulos. Pela primeira vez em anos, sinto que estou a escolher-me a mim.
Na noite do jantar, o Rui vai sozinho. Eu fico em casa, faço um arroz doce como a minha avó fazia. Sento-me à mesa, saboreio cada colherada, deixo as lágrimas caírem. Penso em tudo o que perdi de mim para tentar agradar aos outros. Penso no amor, no respeito, naquilo que mereço.
Quando o Rui volta, está calado. Senta-se ao meu lado, olha-me nos olhos.
— A Magda perguntou por ti. Disse que tens de lhe ensinar a fazer arroz de pato, porque o João não gosta do dela.
Sorrio, triste. — Vês? Todos temos as nossas inseguranças, Rui. Mas não devíamos magoar quem amamos por causa delas.
Ele baixa a cabeça. — Desculpa, Sofia. Nunca pensei que te magoava tanto. Só queria… não sei, sentir que ainda somos especiais um para o outro.
— Somos, se quisermos ser. Mas temos de parar de nos comparar com os outros. Eu não sou a Magda, tu não és o João. Somos nós.
Ele abraça-me, e pela primeira vez em muito tempo sinto que me ouve. Mas sei que nada vai mudar de um dia para o outro. O caminho para nos reencontrarmos vai ser longo, cheio de conversas difíceis, de lágrimas e de perdão.
Agora, sentada nesta cozinha, pergunto-me: quantas mulheres vivem presas a comparações, a tentar ser o que não são para agradar aos outros? E tu, já sentiste que não eras suficiente para alguém que amas?