“Foste tu que trouxeste a tristeza para a nossa família!” – A história de uma mãe e uma filha numa vila portuguesa

— Não te atrevas a sair por essa porta, Mariana! — A voz da minha mãe, Leonor, cortou o ar da cozinha como uma faca. Eu já tinha a mão na maçaneta, o casaco pendurado no braço, e o coração a bater tão alto que parecia que todos podiam ouvir.

— Mãe, eu só vou até à praça, preciso de apanhar ar — tentei explicar, mas ela já não me ouvia. Os olhos dela estavam vermelhos, e as mãos tremiam enquanto agarrava o pano da loiça.

— Desde que o teu pai morreu, só sabes trazer problemas! — gritou, e eu senti o chão fugir-me dos pés. — Foste tu que trouxeste a tristeza para a nossa família!

Aquelas palavras ficaram a ecoar na minha cabeça, como se fossem um trovão que nunca se afastava. Tinha 17 anos, e o mundo parecia-me demasiado grande e demasiado frio. O meu pai, António, tinha morrido há seis meses num acidente na estrada nacional, quando voltava do trabalho na fábrica de cortiça. Desde então, a nossa casa em Santa Comba Dão parecia um túmulo: a minha mãe quase não falava, o meu irmão mais novo, Rui, fechava-se no quarto, e eu… eu era o alvo de todas as culpas, de todos os olhares.

— Mariana, não respondas à tua mãe! — ouvi a voz da minha avó, Maria, vinda da sala, sempre pronta a defender a filha, nunca a neta. — Tens de aprender a respeitar quem te pôs no mundo.

Eu não respondi. Saí, bati a porta com força, e deixei que o frio da noite me cortasse a pele. Caminhei até ao largo da igreja, onde as luzes amarelas dos candeeiros desenhavam sombras longas no empedrado. Sentei-me num banco, abracei os joelhos e chorei. Não sabia se chorava pelo meu pai, por mim, ou por aquela família que parecia ter-se desfeito como um pano velho.

Lembrei-me do último dia em que vi o meu pai. Tinha-me dado um beijo na testa, como sempre fazia, e disse:

— Mariana, sê corajosa. A vida não é fácil, mas tu és mais forte do que pensas.

Na altura, não percebi o que ele queria dizer. Agora, cada palavra dele era uma ferida aberta.

Os dias seguintes foram todos iguais. A minha mãe acordava cedo, fazia o pequeno-almoço em silêncio, e depois ia trabalhar para o lar de idosos. Eu tentava ajudar em casa, mas tudo o que fazia parecia errado. Se lavava a loiça, ela dizia que estava mal lavada. Se arrumava o quarto do Rui, ela gritava que não tinha nada que mexer nas coisas dele. O Rui, por sua vez, mal me olhava. Às vezes, ouvia-o a chorar à noite, mas nunca tive coragem de bater à porta. Sentia-me uma intrusa na minha própria casa.

Na escola, as coisas não eram melhores. Os colegas cochichavam quando eu passava, e a professora de História, Dona Teresa, olhava para mim com pena. Uma vez, tentei falar com a minha melhor amiga, Inês, mas ela afastou-se:

— Mariana, a tua mãe anda a dizer que andas metida com o Tiago. Não quero problemas.

Fiquei sozinha. O Tiago era só um rapaz da turma, nunca tínhamos falado mais do que duas palavras. Mas na vila, os boatos correm mais depressa do que o vento.

Uma noite, ouvi a minha mãe a falar com a avó na cozinha. Estavam convencidas de que eu era a culpada de tudo: da morte do pai, da tristeza do Rui, da vergonha da família. Senti uma raiva a crescer dentro de mim, uma vontade de gritar até ficar sem voz. Mas calei-me. Sempre me calei.

O tempo foi passando, e a dor tornou-se rotina. Até ao dia em que o Rui desapareceu. Tinha 14 anos, e saiu de casa sem dizer nada. A minha mãe entrou em pânico, correu para a GNR, ligou a todos os vizinhos. Eu procurei-o por todo o lado: no campo de futebol, no café do senhor Manuel, junto ao rio. Finalmente, encontrei-o sentado na margem, a atirar pedras à água.

— Rui, anda para casa. A mãe está preocupada.

Ele olhou para mim com olhos vermelhos.

— Porque é que o pai teve de morrer? — perguntou, a voz embargada.

Sentei-me ao lado dele, sem saber o que dizer. Passei-lhe o braço pelos ombros, e ficámos ali, em silêncio, a ouvir o som da água. Pela primeira vez, senti que não estava sozinha na minha dor.

Quando voltámos para casa, a minha mãe abraçou o Rui e chorou. Olhou para mim, mas não disse nada. Eu queria tanto um abraço dela, uma palavra de carinho, mas só recebi silêncio.

Os meses passaram, e a relação com a minha mãe piorou. Um dia, cheguei a casa mais tarde porque fiquei a estudar na biblioteca. Ela esperava-me à porta, furiosa.

— Achas que isto é uma pensão? — gritou. — Não tens respeito por ninguém! O teu pai deve estar a dar voltas no caixão por tua causa!

— Mãe, eu só estava a estudar…

— Cala-te! Não quero ouvir desculpas. És igual ao teu pai, sempre a fugir das responsabilidades!

Essas palavras doeram mais do que qualquer bofetada. O meu pai era tudo para mim. Como podia ela dizer aquilo?

Nessa noite, decidi que não podia continuar ali. Comecei a juntar dinheiro dos trabalhos que fazia a limpar a casa da Dona Emília e a ajudar o senhor Joaquim na mercearia. Queria sair, respirar, encontrar um lugar onde não fosse culpada de tudo.

No verão, arranjei um trabalho num café em Viseu. Disse à minha mãe que ia passar uns dias com uma amiga. Ela nem sequer perguntou com quem, nem para onde. Só disse:

— Faz o que quiseres. Já não espero nada de ti.

Em Viseu, senti-me livre pela primeira vez. Conheci pessoas novas, ninguém sabia da minha história. O patrão, senhor Álvaro, era exigente mas justo. A colega, Sofia, tornou-se minha amiga. Comecei a sorrir outra vez, a acreditar que talvez houvesse um lugar para mim no mundo.

Mas a culpa nunca me largou. À noite, deitada na cama do pequeno quarto que alugava, pensava na minha mãe, no Rui, na casa vazia. Perguntava-me se algum dia me perdoariam, se algum dia eu conseguiria perdoar-me a mim própria.

No final do verão, voltei à vila para buscar algumas coisas. A minha mãe estava sentada à mesa da cozinha, a olhar para uma fotografia do meu pai. O Rui estava no quarto, a jogar computador.

— Mãe… — comecei, mas ela não levantou os olhos.

— O que é que queres agora? — perguntou, fria.

— Só vim buscar umas roupas. Vou voltar para Viseu. Arranjei um trabalho, vou tentar acabar o secundário à noite.

Ela ficou em silêncio. Eu queria tanto que ela dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Mas só ouvi o tique-taque do relógio na parede.

— Mãe, eu… — tentei de novo, mas ela interrompeu-me.

— Faz o que quiseres. Já não és minha filha.

Saí de casa com as lágrimas a correrem-me pela cara. Senti-me órfã, mesmo tendo mãe e irmão vivos.

Os anos passaram. Consegui acabar o secundário, entrei na universidade, arranjei um emprego melhor. O Rui foi crescendo, e de vez em quando mandava-me mensagens. A minha mãe nunca me procurou. No Natal, mandava-lhe um postal, mas nunca recebi resposta.

Hoje, olho para trás e pergunto-me: será que alguma vez fui realmente culpada? Ou será que todos nós, naquela casa, fomos vítimas da mesma dor, incapazes de nos abraçarmos uns aos outros?

Às vezes, ainda sonho com o meu pai. Ele sorri e diz: “Sê corajosa, Mariana.” Tento ser. Mas será que algum dia vou conseguir perdoar a minha mãe? Ou a mim própria? E vocês, já sentiram que carregam uma culpa que não vos pertence?