A Vingança de Dona Laura no Mercado da Esquina

— Dona Laura, não pode levar mais de dois pacotes de arroz, está escrito ali, olha! — disse o Hugo, apontando para o cartaz com um sorriso trocista, enquanto as pessoas atrás de mim na fila começavam a bufar de impaciência.

Senti o rosto arder. O mercado estava cheio, e todos olhavam para mim como se eu fosse uma ladra. Eu, Laura, setenta e três anos, viúva há quase uma década, mãe de três filhos que mal me visitam, agora reduzida a uma velha teimosa a tentar comprar arroz a mais. O Hugo, com aquele ar de quem sabe tudo, nem se dignou a baixar a voz. — Se cada um fizer como a senhora, não chega para ninguém! — insistiu, e eu, sem saber onde enfiar a cara, larguei o terceiro pacote no balcão e paguei, sentindo as mãos tremerem.

Saí do mercado com o coração apertado. O vento frio da manhã parecia gozar comigo, e as lágrimas ameaçavam cair. “Não vou deixar isto assim”, pensei, cerrando os dentes. “Aquele rapaz vai aprender que não se fala assim a uma senhora.”

Em casa, sentei-me à mesa da cozinha, rodeada pelo silêncio pesado do apartamento. Olhei para a fotografia do meu falecido António, sempre sorridente, e murmurei: — Achas que estou a exagerar, meu velho? Mas não posso deixar que me tratem assim. Não depois de tudo o que já vivi.

Passei a tarde a matutar num plano. Lembrei-me de como, em tempos, era conhecida no bairro por ser uma mulher de pulso firme. “A Laura não leva desaforos para casa”, diziam. Mas ultimamente, sentia-me invisível, como se a idade me tivesse roubado a voz. Talvez fosse isso que mais me doía: não era só o arroz, era o desprezo, a sensação de que já não conto para nada.

No dia seguinte, vesti o meu casaco azul-escuro, aquele que uso quando quero sentir-me importante, e fui ao mercado. O Hugo estava lá, claro, a rir-se com a colega, a Mariana. Quando me viu, o sorriso desapareceu. — Bom dia, dona Laura — disse, mas sem olhar nos olhos.

Aproximei-me do balcão de charcutaria, onde ele agora estava a atender. — Queria meio quilo de fiambre, por favor. E corte bem fininho, como eu gosto. — Fiz questão de falar alto, para que todos ouvissem.

Ele começou a cortar, mas percebi que estava nervoso. — Mais alguma coisa?

— Sim, queria também um pouco de queijo flamengo. Mas não desse que está aí à frente, daquele que está lá atrás, parece mais fresco. — Continuei a dar ordens, sentindo-me, por momentos, no controlo. — E já agora, Hugo, podia ser mais simpático com os clientes. Ontem não gostei nada da sua atitude.

Ele ficou vermelho. — Peço desculpa, dona Laura. Não era minha intenção.

— Pois, mas foi. — Peguei nos sacos e virei costas, mas não sem antes lançar um olhar de desprezo. Senti-me vingada, mas só por uns instantes. Lá fora, o frio continuava, e o vazio dentro de mim também.

Nos dias seguintes, comecei a reparar em pequenas coisas. O Hugo já não sorria tanto, parecia mais calado. Uma vez, vi-o a sair do mercado ao fim do dia, com os ombros caídos. Senti uma pontada de culpa, mas afastei-a. “Ele mereceu”, repetia para mim mesma.

No domingo, o meu filho mais novo, o Rui, veio almoçar comigo. — Estás bem, mãe? Pareces abatida.

— São os miúdos do mercado, Rui. Já não se respeita ninguém. — Contei-lhe o que se tinha passado, esperando que ele ficasse do meu lado.

Mas o Rui suspirou. — Mãe, sabes que eles também têm a vida difícil, não sabes? O Hugo perdeu o pai há pouco tempo, anda a trabalhar para ajudar a mãe. Às vezes, as pessoas não têm paciência, mas não é por mal.

Fiquei sem palavras. Não sabia nada da vida do Hugo. Senti-me pequena, mesquinha. Passei o resto do dia a pensar nisso, a lembrar-me de como era difícil quando o António morreu, de como me senti perdida, e de como um sorriso ou uma palavra amiga faziam diferença.

Na segunda-feira, voltei ao mercado. O Hugo estava a arrumar prateleiras. Aproximei-me, o coração aos saltos. — Hugo, posso falar consigo um minuto?

Ele olhou-me, desconfiado. — Claro, dona Laura.

— Queria pedir desculpa. Fui demasiado dura consigo. Não sabia da sua situação. — A voz saiu-me trémula, mas sincera.

Ele sorriu, um sorriso triste. — Não faz mal, dona Laura. Eu também não devia ter falado assim. Às vezes, esqueço-me que as pessoas têm os seus problemas.

Ficámos ali, em silêncio, por uns segundos. Depois, ele disse: — Quer um café? Ofereço-lhe.

Sentámo-nos na pequena esplanada ao lado do mercado. Falámos da vida, das dificuldades, das saudades. Descobri que o Hugo gostava de ler, que sonhava estudar, mas não tinha dinheiro. Contei-lhe do António, dos meus netos, das saudades que tenho de quando a casa estava cheia.

Quando me despedi, senti-me mais leve. A raiva tinha desaparecido, substituída por uma estranha ternura. Percebi que, às vezes, a vingança não traz satisfação, só mais solidão. E que, talvez, o que precisamos é de compreensão, não de revanche.

Agora, sempre que passo no mercado, o Hugo sorri para mim. Às vezes, trocamos uma palavra, outras vezes apenas um olhar cúmplice. E eu pergunto-me: quantas vezes deixamos que o orgulho fale mais alto do que o coração? Será que vale mesmo a pena guardar rancor, quando um gesto de bondade pode mudar tudo?