Quando Deixei de Depilar as Pernas: Um Grito de Liberdade em Lisboa
— Mariana, tu não tens vergonha? — A voz da minha mãe ecoou pela cozinha, carregada de uma mistura de incredulidade e desilusão. Eu estava sentada à mesa, com as pernas cruzadas, os pelos escuros visíveis sob a luz matinal que entrava pela janela. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que quase me sufocou.
Olhei para ela, tentando encontrar as palavras certas. — Mãe, não é vergonha. É só… cansaço. Cansaço de fazer algo que não faz sentido para mim.
O meu pai, sentado ao lado dela, baixou o jornal devagar. — Mariana, tu sabes como é esta terra. As pessoas falam. Não podes simplesmente aparecer assim na rua.
Respirei fundo. Tinha trinta e dois anos, vivia em Lisboa desde os dezoito, mas sempre que voltava a casa dos meus pais em Setúbal sentia-me novamente uma adolescente, presa entre o desejo de agradar e a necessidade de ser eu própria.
A decisão de deixar de me depilar não foi repentina. Começou com uma inquietação surda, um desconforto crescente cada vez que sentia a pele irritada ou via o sangue escorrer depois de mais um corte apressado com a lâmina. Lembro-me do dia em que, sentada no metro a caminho do trabalho, reparei numa rapariga com os braços ao alto, os pelos das axilas ao natural. Ela sorria, alheia aos olhares à sua volta. Senti inveja daquela liberdade.
No início, pensei que ninguém repararia. Mas Portugal ainda é pequeno para certas ousadias. No escritório, as conversas mudaram de tom.
— Mariana, tens tempo para rever aquele relatório? — perguntou o Rui, o meu chefe, mas os olhos dele fugiram para as minhas pernas. Senti o rubor subir-me ao rosto.
No almoço, a Carla não resistiu:
— Estás diferente… É moda nova ou esqueceste-te mesmo?
Sorri sem vontade. — É só uma escolha minha.
— Olha que coragem — murmurou ela, mas percebi o tom trocista.
As mensagens no grupo das amigas começaram a rarear. A Joana foi a única que me ligou:
— Tens a certeza disto? Sabes como as pessoas são…
— Sei. Mas estou cansada de viver para agradar aos outros.
O silêncio dela do outro lado da linha foi mais eloquente do que qualquer resposta.
Em casa, os conflitos tornaram-se rotina. A minha mãe não conseguia aceitar. — Mariana, tu eras tão bonita… Agora pareces desleixada. O que vão pensar as vizinhas? E se algum dia quiseres casar?
O meu irmão mais novo riu-se quando me viu de calções:
— Pareces um puto! Vais jogar à bola?
A raiva subiu-me à garganta. — E então? O corpo é meu!
Ele encolheu os ombros e saiu para ir ter com os amigos.
As semanas passaram e o isolamento cresceu. No supermercado, senti olhares demorados quando usava saia. Uma senhora idosa murmurou para a filha: — Que falta de respeito…
Cheguei a casa e chorei no duche. O som da água abafava os meus soluços. Perguntei-me se valia a pena tanta luta por algo tão pequeno. Mas cada vez que pensava em voltar atrás, sentia uma dor ainda maior — a dor de me trair.
No trabalho, o Rui chamou-me ao gabinete:
— Mariana, tens feito um bom trabalho, mas… já ouviste comentários. Não quero que te prejudiques por causa de… escolhas pessoais.
— Está a sugerir que me depile?
Ele hesitou. — Não é isso… Mas sabes como é o ambiente aqui.
Saí dali com vontade de gritar. Passei o resto do dia a olhar para o monitor sem ver nada.
Nessa noite liguei à minha avó. Ela sempre foi diferente dos outros membros da família — mais silenciosa, mais observadora.
— Avó, achas que estou errada?
Ela ficou calada um instante e depois disse:
— Mariana, quando eu era nova também fiz coisas que ninguém entendia. Se isso te faz sentir inteira, não deixes ninguém dizer o contrário.
As palavras dela foram um bálsamo inesperado.
No fim-de-semana seguinte fui à praia sozinha. Sentei-me na areia com as pernas estendidas ao sol. Senti o vento nos pelos das pernas e sorri pela primeira vez em semanas. Uma criança passou por mim e olhou curiosa; a mãe puxou-a pelo braço sem dizer nada.
No regresso a casa encontrei o meu pai à porta:
— A tua mãe está preocupada contigo.
— Eu sei. Mas não vou mudar só porque ela quer.
Ele suspirou e olhou para mim com uma tristeza resignada:
— Só queremos que sejas feliz… mas também não queremos ver-te sofrer.
Abracei-o e senti as lágrimas nos olhos.
Os meses passaram e fui aprendendo a viver com os olhares e os comentários. Algumas amigas afastaram-se; outras aproximaram-se mais do que nunca. A Joana acabou por confessar:
— Sempre quis fazer como tu, mas nunca tive coragem.
No Natal, sentei-me à mesa com a família inteira. O ambiente estava tenso até a minha avó levantar o copo:
— À Mariana! Que nunca tenha medo de ser quem é!
O meu irmão revirou os olhos; a minha mãe sorriu timidamente; o meu pai apertou-me a mão por baixo da mesa.
Hoje olho para trás e vejo o quanto cresci neste processo doloroso. Não foi só sobre pelos nas pernas ou nas axilas; foi sobre aprender a dizer não ao medo e sim à liberdade.
Às vezes pergunto-me: quantas vezes nos anulamos só para caber no molde dos outros? E será que vale mesmo a pena sacrificar quem somos por um pouco de aceitação?