Um Fim de Semana Que Mudou Tudo – Quando a Minha Sogra Não Veio Só
— Não acredito que ela fez isto outra vez! — murmurei, apertando o telemóvel com tanta força que quase o partia. O relógio da cozinha marcava 19h12 de sexta-feira e eu estava a tentar terminar o jantar antes que o Diogo e a Matilde começassem a reclamar de fome. O telefone ainda vibrava na minha mão, com a mensagem da minha sogra a piscar no ecrã: “Estou a caminho. Chego em meia hora. Trago companhia.”
Companhia? Nem sequer perguntou se podíamos receber alguém. Senti o estômago apertar-se, como sempre acontecia quando ela decidia aparecer de surpresa. O Luís entrou na cozinha nesse momento, com o cabelo ainda molhado do duche e um sorriso cansado.
— O que se passa, Inês? — perguntou, olhando para mim com aquela expressão de quem já adivinha a resposta.
— A tua mãe vem cá. E não vem sozinha. — tentei manter a voz calma, mas saiu-me um tom mais agudo do que queria.
Ele suspirou, passou as mãos pelo rosto e encostou-se ao balcão.
— Outra vez? Ela não podia ter avisado com mais antecedência?
— Aparentemente não. E eu nem sei quem é a companhia. — respondi, tentando não deixar transparecer o pânico.
O Diogo apareceu à porta da cozinha, com a camisola do Benfica e os olhos brilhantes de curiosidade.
— Quem vem cá, mãe?
— A avó Teresa. E alguém com ela. — respondi, forçando um sorriso.
A Matilde, sempre atenta ao ambiente, percebeu logo que algo não estava bem. Sentou-se à mesa e ficou a olhar para mim, em silêncio. O Luís tentou animar as crianças:
— Vai correr tudo bem. Vamos ver quem é o convidado surpresa.
Mas eu conhecia bem a minha sogra. Nada era simples com ela. Desde que o meu sogro morreu, há três anos, ela parecia ter feito da nossa casa o seu refúgio — ou talvez o seu campo de batalha.
Meia hora depois, ouvi o som familiar do motor do seu Renault Clio a estacionar à porta. O Luís foi abrir e eu fiquei na cozinha, a tentar controlar a respiração. Ouvi vozes — uma masculina, grave, desconhecida — e risos forçados.
— Inês! — chamou a minha sogra, entrando com um casaco de lã azul e um sorriso largo demais para ser sincero. — Olha quem trouxe!
Atrás dela vinha um homem de meia-idade, alto, cabelo grisalho e olhos escuros. Trazia uma mala pequena e um ramo de flores na mão.
— Este é o António — disse ela, orgulhosa. — Conhecemo-nos no grupo de caminhadas da Junta de Freguesia.
O Luís ficou sem saber o que dizer. Eu sorri mecanicamente e estendi a mão ao António.
— Muito prazer…
Ele apertou-me a mão com força.
— O prazer é meu. A Teresa fala muito de si.
A Matilde olhou para mim, desconfiada. O Diogo limitou-se a encolher os ombros e voltou para o telemóvel.
O jantar foi um desfile de trivialidades: o António falava das caminhadas, da paixão por fotografia; a minha sogra ria alto demais; o Luís tentava manter a conversa leve; eu sentia-me cada vez mais pequena à mesa da minha própria casa.
Quando as crianças foram para o quarto, a minha sogra lançou-me aquele olhar que só as mães sabem dar às noras.
— Inês, espero que não te importes… Achei que era bom para todos termos companhia este fim de semana.
Mordi o lábio para não responder mal. O António sorriu-me gentilmente.
— Se for incómodo eu posso ir para um hotel…
— Não é preciso — interrompeu logo a Teresa. — Aqui há espaço para todos.
O Luís olhou para mim, pedindo desculpa em silêncio. Eu levantei-me para arrumar a loiça, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.
Naquela noite mal dormi. Ouvi risos vindos da sala até tarde. Lembrei-me dos primeiros anos do nosso casamento: como era difícil agradar à Teresa; como ela criticava tudo — desde a forma como fazia o arroz até à maneira como educava os filhos. O Luís sempre tentava apaziguar as coisas, mas acabava por ficar do lado dela nas discussões mais sérias.
No sábado de manhã, acordei cedo e fui correr para tentar aliviar a tensão. Quando voltei, encontrei o António na cozinha, sozinho, a preparar café.
— Bom dia — disse ele, sorrindo.
— Bom dia… Dormiu bem?
Ele assentiu.
— A Teresa é uma mulher especial…
Sorri sem saber o que dizer.
— Sabe — continuou ele — perdi a minha mulher há cinco anos. Achei que nunca mais ia conseguir voltar a sorrir… Mas a Teresa tem uma energia contagiante.
Assenti em silêncio. Não era fácil ver alguém ocupar o lugar do meu sogro tão depressa — pelo menos para mim parecia depressa demais.
O resto do dia foi uma sucessão de pequenas irritações: a Teresa criticou o meu bolo de laranja (“O da minha mãe ficava mais fofo”), implicou com os brinquedos espalhados pela sala (“Na minha casa nunca havia esta confusão”), e sugeriu que talvez devêssemos mudar os miúdos para uma escola privada (“Hoje em dia nunca se sabe…”).
Ao almoço, já exausta, deixei escapar:
— Talvez devêssemos perguntar aos miúdos se querem mudar de escola antes de decidir por eles…
A Teresa olhou-me como se eu tivesse dito uma heresia.
— Os pais é que sabem o que é melhor!
O António tentou intervir:
— Teresa, cada família tem as suas escolhas…
Ela ignorou-o e continuou:
— No meu tempo não havia estas modernices!
O Luís ficou calado. Senti-me sozinha à mesa.
À tarde levei as crianças ao parque para respirar fundo. A Matilde perguntou:
— Mãe, porque é que a avó está sempre chateada contigo?
Abracei-a com força.
— Não está chateada… Só gosta das coisas à maneira dela.
Mas sabia que era mentira. A Teresa nunca me perdoou por ter tirado o filho dela daquela bolha familiar onde tudo era controlado por ela.
Quando voltámos, ouvi vozes exaltadas na sala. O António estava de pé; a Teresa chorava; o Luís tentava acalmá-la.
— Não percebes! — gritava ela ao filho — Desde que aquele acidente aconteceu tu mudaste! Nunca mais foste o mesmo!
Fiquei gelada à porta. O acidente… Era um assunto tabu na família: há quatro anos, o Luís tinha adormecido ao volante depois de uma discussão connosco e bateu contra um muro. Ficou semanas no hospital; desde então nunca mais falámos disso abertamente.
O António olhou para mim com compaixão quando entrei na sala.
— Está tudo bem? — perguntei baixinho ao Luís.
Ele abanou a cabeça.
— A mãe acha que eu devia ter ficado mais perto dela depois do pai morrer…
A Teresa limpou as lágrimas e olhou para mim com raiva contida:
— Tu afastaste-o da família!
Senti um nó na garganta. O António tentou intervir:
— Teresa, não é justo culpares a Inês…
Ela levantou-se bruscamente:
— Ninguém me entende nesta casa! Nem tu! — gritou ao António antes de sair porta fora para o jardim.
O silêncio caiu sobre nós como uma nuvem pesada. O Luís sentou-se no sofá e enterrou a cabeça nas mãos. Sentei-me ao lado dele e toquei-lhe no ombro.
— Não és responsável pela dor dela…
Ele olhou para mim com olhos vermelhos:
— Mas sinto-me culpado todos os dias…
O António suspirou:
— As pessoas agarram-se ao passado porque têm medo do futuro…
Nessa noite jantámos em silêncio. A Teresa só voltou quando já estávamos quase a acabar; sentou-se à mesa sem olhar para ninguém. O António tentou animar a conversa mas ninguém tinha vontade de falar.
No domingo de manhã preparei panquecas para as crianças e tentei agir normalmente. A Teresa entrou na cozinha em silêncio; parecia mais velha, cansada.
— Inês… — disse ela baixinho — Desculpa por ontem… Eu só queria sentir-me parte desta família outra vez…
Olhei para ela durante uns segundos antes de responder:
— Eu também quero isso… Mas precisamos respeitar os limites uns dos outros.
Ela assentiu devagar e saiu da cozinha sem dizer mais nada.
Quando finalmente se foram embora naquele domingo à tarde, senti um alívio misturado com tristeza. O Luís abraçou-me forte; os miúdos correram para os quartos como se nada tivesse acontecido.
Fiquei sozinha na sala, rodeada pelo cheiro das flores que o António deixou e pelo eco das palavras não ditas durante todo o fim de semana.
Pergunto-me: será possível construir uma família sem abrir feridas antigas? Ou será que precisamos mesmo enfrentar tudo aquilo que tentamos esconder para podermos seguir em frente? E vocês? Onde traçam a linha entre ajudar e invadir?