Traição, Sangue e Vingança: O Renascimento de Giulia
— Achas que sou estúpida, Miguel? — gritei, a voz embargada de raiva e humilhação, enquanto segurava o telemóvel com a mensagem da Andreia aberta. O cheiro a vinho tinto pairava no ar da sala, misturado com o perfume barato que ele usava sempre que ia “trabalhar até tarde”.
Miguel olhou-me com aquele sorriso cínico, os olhos semicerrados, e atirou o copo contra a parede. O som do vidro a partir ecoou pelo apartamento, mas o que me doeu mesmo foi o silêncio que se seguiu. — Não faças cenas, Giulia. Tu nunca foste suficiente para mim. — As palavras dele cortaram-me mais fundo do que qualquer bofetada. Mas não foi só isso. Ele aproximou-se, agarrou-me pelo braço com força, e antes que eu pudesse reagir, a mão dele acertou-me na cara. Senti o sangue quente a escorrer pela testa, misturando-se com as lágrimas que já não conseguia conter.
Naquele momento, tudo mudou. O medo que sempre me prendeu evaporou-se, substituído por uma raiva surda, ancestral. Lembrei-me dos meus irmãos, o Rui e o Tomás, homens que cresceram comigo nos bairros duros de Lisboa, que sempre juraram proteger-me de tudo e de todos. Miguel não sabia com quem se estava a meter.
Fugi naquela noite, descalça, com o casaco a tapar-me o rosto ensanguentado. Corri pelas ruas frias de Alfama até à casa do Rui. Bati à porta com força, quase a desmaiar. Ele abriu, e quando me viu naquele estado, os olhos dele ficaram negros de ódio. — Quem foi, Giulia? Diz-me quem te fez isto. — A voz dele era baixa, mas carregada de uma fúria que eu nunca tinha ouvido.
— Foi o Miguel. Ele… ele tem outra. E bateu-me. — As palavras saíram-me entre soluços, mas o Rui já não precisava de mais explicações. Pegou no telemóvel e ligou ao Tomás. — Encontra-te comigo no sítio do costume. É urgente. — E depois, para mim: — Agora estás segura. Ninguém volta a tocar-te, prometo.
Naquela noite, deitada no sofá do Rui, ouvi-os a conspirar na cozinha. O Tomás era o mais frio dos dois, sempre calculista, sempre a pensar dois passos à frente. — Não podemos agir de cabeça quente. O Miguel tem amigos na polícia. Se fizermos asneira, ela é que se lixa. — Mas o Rui não queria saber. — Ele vai pagar. Nem que seja a última coisa que eu faça.
Os dias seguintes foram um nevoeiro de medo e vergonha. A minha mãe ligava-me todos os dias, a perguntar porque não voltava para casa. — Não posso, mãe. Preciso de tempo. — Não tive coragem de lhe contar a verdade. Em Portugal, ainda há quem ache que a culpa é sempre da mulher. Que se ele bateu, é porque ela provocou. Mas eu sabia que não era assim. E os meus irmãos também.
O Miguel tentou ligar-me, mandou mensagens, até flores enviou para o trabalho. “Desculpa, perdi a cabeça. Volta para casa, Giulia. Não sou nada sem ti.” Mas eu já não era a mesma. O sangue que me escorreu naquela noite lavou a minha ingenuidade, deixou-me só com a vontade de justiça.
Uma noite, o Rui chegou a casa com um envelope. — Conseguimos. — Disse, atirando-o para cima da mesa. Abri e vi fotografias do Miguel com a Andreia, num restaurante caro, a trocar carícias. Havia também cópias de transferências bancárias suspeitas, e-mails, tudo o que era preciso para destruir a reputação dele. — Agora é contigo, mana. — O Tomás olhou-me nos olhos. — Queres vingança ou justiça?
Pensei muito naquela noite. Odiava o Miguel, mas odiava ainda mais a ideia de me tornar igual a ele, de deixar que a raiva me consumisse. Mas depois lembrei-me de todas as vezes que ele me fez sentir pequena, de todas as mentiras, de todos os olhares de pena das vizinhas. Não, não podia deixar passar.
No dia seguinte, fui à polícia. Levei as provas, contei tudo. O agente olhou para mim com desconfiança, mas quando viu as fotografias e os relatórios médicos, mudou de tom. — Fez bem em vir cá, dona Giulia. Não é a primeira queixa contra o seu marido. — Senti um misto de alívio e revolta. Quantas mulheres antes de mim tinham ficado caladas?
A notícia espalhou-se rápido pelo bairro. A Andreia desapareceu, o Miguel foi suspenso do trabalho, e a minha mãe finalmente soube a verdade. — Devias ter-me contado, filha. — Chorou, abraçando-me. — Ninguém merece passar por isso. — Pela primeira vez, senti-me compreendida.
Mas a história não acabou aí. O Miguel tentou vingar-se, ameaçou-me, tentou intimidar os meus irmãos. Uma noite, apareceu à porta do Rui, bêbado, aos gritos. — Achas que me podes destruir, Giulia? Eu sou homem, ninguém me faz isto! — O Rui saiu à rua, enfrentou-o. — Se te voltares a aproximar da minha irmã, juro que não respondo por mim. — O Miguel recuou, mas vi nos olhos dele que não ia desistir facilmente.
Os meses passaram. Fui a tribunal, enfrentei o Miguel de cabeça erguida. Ele tentou negar tudo, mas as provas eram esmagadoras. Quando o juiz leu a sentença, senti um peso a sair-me do peito. O Miguel foi condenado, e eu finalmente livre.
A vida não voltou ao que era antes. Fiquei com cicatrizes, dentro e fora. Mas aprendi a gostar de mim, a confiar nos meus irmãos, a perceber que a justiça pode ser lenta, mas chega. Voltei a estudar, arranjei um novo emprego, fiz novas amigas. E, acima de tudo, prometi a mim mesma que nunca mais deixaria ninguém tirar-me a voz.
Às vezes, ainda acordo a meio da noite com o coração aos pulos, a lembrar-me daquela noite. Mas olho para o espelho e vejo uma mulher diferente. Uma mulher que sobreviveu, que lutou, que venceu.
E vocês, o que fariam no meu lugar? Acham que a vingança é suficiente, ou só a justiça pode curar feridas tão profundas?