“Se não fosse por mim, morrias à fome!” – Um ano depois, eu comandava a empresa dele. A história de Inês de Setúbal
“Se não fosse por mim, morrias à fome!” – As palavras do Rui ecoavam-me na cabeça enquanto eu olhava para a sala vazia, ainda com o cheiro dele misturado ao do café frio. A porta tinha acabado de bater atrás dele, e eu, de pijama, sentia o chão fugir-me dos pés. “Inês, tu não sabes viver sem mim. Vais ver, vais acabar a pedir-me para voltares.” Ele atirou-me isto à cara, olhos frios, enquanto arrastava a mala pelo corredor. Eu não respondi. Não havia forças. Só lágrimas, e uma raiva surda a crescer-me no peito.
A nossa filha, Mariana, tinha-se fechado no quarto. Tinha ouvido tudo. Tinha visto a mãe a implorar, o pai a cuspir palavras cortantes, a mala a bater nas paredes. “Mãe, ele vai voltar?” perguntou-me ela, mais tarde, com a voz embargada. Eu não sabia o que responder. Não sabia nada. Só sabia que a minha vida, aquela vida que eu julgava segura, tinha acabado ali.
Os dias seguintes foram um nevoeiro. A minha mãe, Dona Teresa, apareceu logo, com a sua voz prática e o olhar duro. “Inês, levanta-te. Tens uma filha. Tens uma casa. O Rui não é Deus.” Mas eu sentia-me um farrapo. O telefone tocava, as vizinhas cochichavam, e eu só queria desaparecer. O Rui não me ligava. Só mandava mensagens secas: “Trata dos papéis do divórcio. Não me chateies.”
A Mariana começou a ter dificuldades na escola. Chamaram-me à reunião. “A sua filha está distraída, senhora Inês. Parece triste.” Eu sabia porquê. E sentia-me culpada. O dinheiro começou a faltar. O Rui, que sempre controlou tudo, deixou de pagar as contas. A luz quase foi cortada. A minha mãe emprestou-me algum, mas eu sabia que não podia viver assim. Tinha de fazer alguma coisa.
Foi então que a vida me pregou uma rasteira inesperada. Um dia, o telefone tocou. Era o António, o contabilista da empresa de transportes do Rui. “Inês, desculpe ligar-lhe, mas o Rui está a deixar tudo ao abandono. Os motoristas não recebem, os clientes estão a reclamar. Ele não aparece cá há semanas. Preciso de alguém que perceba disto. Preciso de si.”
Fiquei em choque. Eu, que só ajudava com a papelada, ia agora meter-me naquele mundo de camiões, faturas e motoristas maldispostos? Mas o desespero é um grande professor. Disse que sim. No dia seguinte, entrei no escritório, de cabeça baixa, sentindo os olhares dos funcionários. O António apresentou-me: “Esta é a Inês, vai ajudar a pôr isto em ordem.” O João, o motorista mais velho, olhou-me de lado: “A patroa agora é a senhora? Vamos lá ver como isto corre…”
Os primeiros dias foram um inferno. O Rui, ao saber que eu estava lá, ligou-me furioso. “O que é que tu pensas que estás a fazer? Isso é meu!” Eu tremia, mas respondi: “É teu, mas está a cair aos bocados. Ou faço alguma coisa, ou perdes tudo.” Ele riu-se. “Tu? Não percebes nada disto. Vais falhar.”
Mas eu não falhei. Aprendi a gerir horários, a negociar com clientes, a ouvir as queixas dos motoristas. O António tornou-se meu aliado. “Inês, tu tens jeito para isto. O Rui nunca quis saber das pessoas. Tu ouves.” Aos poucos, fui conquistando respeito. O João, que no início me tratava com desconfiança, começou a trazer-me café e a contar-me histórias da estrada. “A senhora é dura, mas justa. Faz falta gente assim.”
A Mariana também mudou. Começou a perguntar-me sobre o trabalho, a querer ajudar. “Mãe, posso organizar as pastas?” Eu deixava, orgulhosa. A minha mãe, sempre pragmática, dizia: “Vês? O Rui não te fez falta nenhuma.” Mas eu sabia que ainda doía. Doía ver o meu nome nos papéis do divórcio, doía ouvir as pessoas a comentar: “Coitada da Inês, foi trocada por uma miúda.”
Um dia, a tal miúda apareceu no escritório. Chama-se Soraia, tem vinte e poucos anos, cabelo loiro pintado e unhas de gel. Veio buscar umas chaves do carro do Rui. Olhou-me de cima a baixo, com um sorriso de desdém. “Então, é a ex dele? Deve ser estranho, não?” Eu respirei fundo. “Estranho é ver alguém destruir o que outros construíram com tanto esforço.” Ela riu-se, mas vi nos olhos dela um lampejo de insegurança.
O Rui, entretanto, afundava-se. Perdeu clientes, começou a beber, ligava-me a horas absurdas. “Inês, ajuda-me. Não sei o que fazer.” Eu sentia pena, mas também raiva. “Agora precisas de mim? Quando me disseste que eu não valia nada?” Ele chorava ao telefone. “Desculpa, Inês. Fui um idiota.” Eu desligava. Tinha aprendido a proteger-me.
A empresa começou a dar lucro. Os motoristas confiaram em mim, os clientes voltaram. O António propôs-me sociedade. “Isto é teu tanto como meu. O Rui já não manda aqui.” Assinei o contrato com as mãos a tremer. Lembrei-me das palavras dele: “Se não fosse por mim, morrias à fome!” Sorri. Não morri. Renovi-me.
No Natal, fizemos uma ceia pequena, só eu, a Mariana e a minha mãe. A Mariana abraçou-me: “Mãe, és a minha heroína.” Chorei, pela primeira vez em meses, mas de alívio. A minha mãe brindou: “Às mulheres que não se deixam deitar abaixo.”
O Rui acabou por desaparecer. Ouvi dizer que foi viver para o Algarve com a Soraia. Não me interessa. O que me interessa é que, um ano depois, sou dona de mim, da minha vida, e da empresa que ele achava que era só dele.
Às vezes, olho para trás e pergunto-me: como é que aguentei? Como é que uma mulher, sozinha, consegue reconstruir tudo? Será que somos todas mais fortes do que pensamos? E vocês, já sentiram que renasceram das cinzas?