Tarde Demais para Mudar: O Caminho de Volta Está Fechado – A História de Elizabete Nunes

— O que estás a fazer na minha casa? — perguntei, com a voz trémula, mal conseguindo segurar as chaves que ainda tilintavam na minha mão. A mulher, sentada no sofá onde tantas vezes adormeci ao lado do meu filho, olhou-me com um misto de pena e desafio. O meu coração batia tão forte que temi desmaiar ali mesmo, no tapete que eu própria escolhera anos antes, quando ainda acreditava que a felicidade era uma questão de esforço e dedicação.

O cheiro a café fresco misturava-se com o perfume estranho daquela mulher. Senti-me uma intrusa na minha própria casa. O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo som dos meus passos hesitantes. O meu marido, António, apareceu à porta da cozinha, com uma expressão que nunca lhe tinha visto antes — uma mistura de culpa e alívio.

— Elizabete, precisamos de conversar — disse ele, desviando o olhar. O meu filho, Diogo, não estava em casa. Senti um vazio ainda maior.

Durante anos, fui a mulher que tudo fazia para manter a família unida. Trabalhava como auxiliar numa escola primária em Setúbal, acordava antes do sol para preparar os pequenos-almoços, lavava a roupa, ajudava o Diogo com os trabalhos de casa. António, camionista, passava dias fora, mas eu nunca reclamei. Sempre achei que o amor era feito de paciência e sacrifício.

Quando adoeci, tudo mudou. O diagnóstico de cancro apanhou-me de surpresa. Passei meses entre consultas, tratamentos e noites solitárias no hospital de Santa Maria. António vinha visitar-me, mas sempre apressado, sempre com o telemóvel na mão. Diogo, adolescente, começou a afastar-se. Eu dizia a mim própria que era normal, que era a idade, que tudo voltaria ao normal quando eu melhorasse.

Mas naquele dia, ao regressar finalmente a casa, percebi que nada voltaria a ser como antes. A mulher levantou-se do sofá, ajeitou a mala e disse, sem rodeios:

— Eu sou a Ana. Acho que é melhor conversarem sozinhos.

Ela saiu, deixando um rasto de perfume doce e uma ferida aberta no meu peito. Sentei-me, sem forças, e olhei para António. Ele não disse nada durante longos minutos. O relógio da parede marcava as horas como se zombasse da minha dor.

— Elizabete, eu… — começou ele, mas não conseguiu continuar. — Não planeei nada disto. Aconteceu. Eu estava sozinho, tu estavas no hospital…

— Sozinho? — interrompi, sentindo a raiva crescer. — E eu? Achas que não estava sozinha? Achas que não precisei de ti?

Ele baixou a cabeça. Senti-me traída, não só por ele, mas por todos os anos em que acreditei que o amor era suficiente. Lembrei-me das noites em que chorei em silêncio, para não preocupar o Diogo. Dos dias em que me forcei a sorrir, mesmo quando o corpo doía e a alma estava cansada.

— E o Diogo? — perguntei, com a voz embargada.

— Ele sabe — respondeu António, quase num sussurro. — Não gostou, claro. Mas é um miúdo, vai habituar-se.

Aquelas palavras foram como facas. O meu filho, o meu menino, a viver esta confusão sem que eu pudesse protegê-lo. Senti-me falhar como mãe, como mulher, como pessoa.

Os dias seguintes foram um borrão de lágrimas, discussões e silêncios. Fiquei em casa apenas o tempo suficiente para arrumar algumas roupas e documentos. António não pediu desculpa, não implorou para eu ficar. Parecia aliviado por finalmente poder viver a sua nova vida sem esconderijos.

Procurei abrigo em casa da minha irmã, Margarida, em Palmela. Ela recebeu-me de braços abertos, mas também com perguntas difíceis.

— Como é que não viste nada, Bete? — perguntou ela, numa noite em que o vinho nos soltou a língua. — O António sempre foi distante, sempre teve os seus segredos…

— Eu quis acreditar — respondi, com lágrimas a escorrer pelo rosto. — Quis acreditar que o amor era suficiente.

Margarida abraçou-me, mas eu sentia-me cada vez mais sozinha. O Diogo vinha visitar-me de vez em quando, mas estava zangado, confuso. Um dia, explodiu:

— Porque é que não lutaste, mãe? Porque é que deixaste o pai ficar com ela?

— Não fui eu que deixei, Diogo. Ele é que escolheu. Eu só… não podia obrigar ninguém a amar-me.

Ele saiu a correr, batendo com a porta. Fiquei a olhar para o vazio, a perguntar-me onde tinha falhado. Os meses passaram. Voltei ao trabalho, mas já não era a mesma. As colegas olhavam-me com pena, os alunos perguntavam porque é que eu estava sempre triste.

Uma tarde, ao regressar a casa, encontrei Margarida sentada à mesa, com uma carta nas mãos.

— É do António — disse ela, entregando-me o envelope.

Abri-o com mãos trémulas. António pedia desculpa, dizia que as coisas com a Ana também não estavam fáceis, que sentia falta da família. Mas não pedia para eu voltar. Apenas queria que eu perdoasse, que aceitasse que a vida tinha seguido outro rumo.

Senti uma raiva surda. Tantos anos de dedicação, de sacrifício, e agora era eu quem tinha de perdoar? Fui até à janela, olhei para o céu escuro de inverno e chorei como há muito não chorava.

Os dias tornaram-se rotinas vazias. O Diogo acabou por ir viver com o pai, dizendo que precisava de espaço, que não aguentava ver-me tão triste. Senti-me morrer por dentro. Margarida tentou animar-me, levou-me a passear, apresentou-me amigas, mas eu estava fechada numa concha de dor.

Foi numa dessas tardes, sentada num banco do parque, que uma senhora idosa se sentou ao meu lado. Olhou para mim, sorriu e disse:

— Sabe, minha filha, às vezes a vida fecha-nos portas para nos obrigar a abrir janelas.

Sorri, sem vontade, mas aquelas palavras ficaram comigo. Comecei a pensar no que queria para mim, não para os outros. Inscrevi-me num curso de costura, comecei a fazer pequenos trabalhos para vizinhas. Aos poucos, fui recuperando alguma alegria. O Diogo começou a visitar-me mais vezes, já menos zangado, mais compreensivo.

— Desculpa, mãe — disse ele um dia, abraçando-me. — Eu também estava perdido.

Abracei-o com força. Percebi que, apesar de tudo, ainda éramos família, mesmo que diferente. O António continuou a ligar de vez em quando, mas já não doía tanto. A Ana acabou por sair da vida dele, e ele ficou sozinho. Senti pena, mas não vontade de voltar.

Hoje, olho para trás e vejo uma mulher que se perdeu de si mesma para agradar aos outros. Que acreditou que o amor era sacrifício, que ser mãe e esposa era esquecer-se de si própria. Agora, com quase cinquenta anos, começo finalmente a descobrir quem sou. Tenho medo do futuro, mas também esperança.

Às vezes pergunto-me: quantas mulheres vivem assim, presas a sonhos que não são seus? Quantas portas fechadas são, afinal, o início de uma nova vida? E vocês, já sentiram que era tarde demais para mudar?