Basta! A Minha Vida Não É Uma Creche
— Outra vez, Sofia? — perguntei, tentando esconder o cansaço na voz, enquanto ela me entregava o pequeno Tomás à porta do meu apartamento. O corredor cheirava a sopa de legumes e a chuva que caía lá fora, misturando-se com a tensão que pairava entre nós.
Sofia sorriu, nervosa, ajeitando o cabelo atrás da orelha. — Desculpa, Mariana, mas o meu chefe pediu-me para ficar até mais tarde outra vez. Não tenho mesmo ninguém…
Olhei para Tomás, que já corria para o meu sofá, tirando os sapatos pelo caminho. O miúdo era doce, mas eu sentia o peso de cada tarde roubada à minha própria vida. Desde que me mudei para este prédio em Benfica, há quase um ano, Sofia tornou-se uma presença constante — e o seu filho, uma responsabilidade que nunca pedi.
No início, achei que era só um favor entre vizinhas. Uma hora aqui, outra ali. Mas, com o tempo, tornou-se rotina: Sofia batia à porta, sempre com um pedido urgente, sempre com um sorriso de quem sabe que está a abusar, mas não consegue evitar. E eu, incapaz de dizer não, deixava-me levar pela culpa e pelo medo de parecer má pessoa.
Hoje, porém, sentia-me diferente. O meu peito apertava-se de ansiedade e raiva. Tinha planos para a noite: queria finalmente ligar à minha mãe, preparar um jantar decente, talvez ver um filme sem interrupções. Mas ali estava eu, mais uma vez, a abdicar de tudo para cuidar de um filho que não era meu.
— Sofia, eu… — comecei, mas ela já estava a descer as escadas, atirando um “Obrigada, és um anjo!” por cima do ombro. Fiquei ali, parada, com a porta aberta e o coração aos saltos.
Fechei a porta devagar e encostei-me a ela, sentindo as lágrimas a quererem cair. Tomás apareceu à minha frente, com um carrinho de brincar na mão.
— Mariana, posso ver desenhos animados?
Assenti, sem forças para discutir. Sentei-me no sofá, olhando para o telemóvel. Tinha uma mensagem da minha mãe: “Filha, estás bem? Sinto a tua falta.” Suspirei. Senti-me sozinha, usada, e, acima de tudo, invisível.
O tempo passou devagar. Tomás ria-se com as aventuras do Panda e eu tentava concentrar-me no livro que tinha começado há semanas, mas as palavras dançavam à minha frente, sem sentido. A cada gargalhada dele, sentia uma pontada de culpa — não era justo descontar no miúdo o que sentia pela mãe dele. Mas também não era justo para mim.
Quando Sofia voltou, já passava das nove. Entrou apressada, com o cabelo desgrenhado e os olhos cansados.
— Desculpa, Mariana, foi mesmo impossível sair mais cedo. O Tomás portou-se bem?
— Portou, sim — respondi, seca. — Mas precisamos de falar.
Ela parou, surpresa. — O que se passa?
Respirei fundo, tentando controlar a voz. — Sofia, eu gosto muito de ti e do Tomás, mas isto não pode continuar assim. Eu também tenho a minha vida, os meus compromissos. Não posso ser sempre eu a resolver.
Ela ficou em silêncio por um momento, olhando para o chão. — Eu sei… Só que não tenho mesmo ninguém. O meu ex não quer saber do Tomás, a minha mãe está doente, e eu…
— Eu entendo, mas não posso ser a tua única solução. Precisas de encontrar alternativas. Eu ajudo quando posso, mas não posso ser sempre eu. — A minha voz tremia, mas mantive-me firme.
Sofia mordeu o lábio, os olhos a encherem-se de lágrimas. — Desculpa, Mariana. Eu não queria abusar… Só que às vezes sinto que vou desmoronar.
— Eu também — confessei, surpreendendo-me com a sinceridade. — Sinto-me a desmoronar, Sofia. Sinto que a minha vida deixou de ser minha.
Ela assentiu, limpando uma lágrima. — Eu vou tentar arranjar outra solução. Prometo.
Depois que ela saiu com Tomás, sentei-me no chão da sala, abraçando os joelhos. O silêncio era pesado, mas, pela primeira vez em meses, senti-me aliviada. Tinha dito o que precisava, mas o medo de ter estragado a nossa relação pairava no ar.
Os dias seguintes foram estranhos. Sofia evitava cruzar-se comigo no elevador, e Tomás já não batia à minha porta com o sorriso de sempre. Senti falta dele, da sua energia, mas também senti uma liberdade nova. Comecei a recuperar pequenos pedaços de mim: voltei a cozinhar, a ler, a ligar à minha mãe sem pressa.
Uma tarde, ao regressar do trabalho, encontrei Sofia sentada nas escadas, com Tomás ao colo. Pareciam perdidos, como se o mundo lhes tivesse caído em cima.
— Mariana, posso falar contigo? — perguntou, a voz baixa.
Assenti, sentando-me ao lado deles. Sofia respirou fundo.
— Arranjei uma senhora para ficar com o Tomás duas vezes por semana. Não é o ideal, mas é o que posso pagar. Só queria que soubesses que nunca quis que te sentisses usada. És a minha única amiga aqui, e não quero perder isso.
Olhei para ela, sentindo a dor e a sinceridade nas suas palavras. — Eu também não quero perder a nossa amizade, Sofia. Só preciso de espaço para mim. Não quero deixar de ajudar, mas preciso de limites.
Ela sorriu, aliviada. — Obrigada por me dizeres. Às vezes, esqueço-me que também tens a tua vida.
Tomás olhou para mim, tímido. — Mariana, ainda posso vir brincar contigo às vezes?
Sorri, puxando-o para um abraço. — Claro que sim, campeão. Só não todos os dias, está bem?
Ele assentiu, feliz, e senti o peso a desaparecer do meu peito. Sofia levantou-se, agradecida, e, pela primeira vez em muito tempo, senti que tínhamos encontrado um equilíbrio.
Naquela noite, deitei-me na cama a pensar em tudo o que tinha acontecido. Percebi que dizer “não” não era um ato de egoísmo, mas de sobrevivência. Que impor limites era a única forma de proteger a minha sanidade e, ao mesmo tempo, preservar as relações que realmente importavam.
Será que é assim tão difícil dizer basta? Ou será que, no fundo, todos temos medo de perder aquilo que nos faz sentir necessários, mesmo que isso nos custe a paz? E vocês, já se sentiram assim? Como encontraram o vosso equilíbrio?