O Preço da Sauna: Uma Família, Dois Lados e uma Lição Inesquecível
— Clara, tens a certeza de que isto é boa ideia? — perguntou o Marcelo, com a voz tensa, enquanto eu olhava para a janela da sala, onde já se viam os carros dos meus primos a estacionar.
Senti o estômago apertar. Era domingo, e mais uma vez a nossa casa ia transformar-se num campo de férias improvisado. Desde que comprámos a sauna, há seis meses, a nossa vida virou do avesso. No início, achei graça: era bom ver a família reunida, rir, partilhar histórias. Mas rapidamente a novidade deu lugar ao abuso. Os meus tios, primos e até vizinhos distantes começaram a aparecer sem avisar, sempre com toalhas e chinelos, prontos para aproveitar o nosso pequeno luxo.
Lembro-me da primeira vez que a minha mãe trouxe a tia Lurdes e o tio António. “Só para experimentar, filha, não te importas, pois não?” Claro que não me importava. Mas depois vieram os primos, os filhos dos primos, e até a avó, que nunca gostou de calor, mas agora dizia que a sauna era boa para as articulações.
— Marcelo, não podemos continuar assim. A nossa casa deixou de ser nossa — desabafei, sentindo as lágrimas a quererem saltar.
Ele abraçou-me, mas percebi que também estava cansado. O Marcelo sempre foi paciente, mas até ele tinha limites. “A tua família é demais, Clara. Não sabem quando parar.”
Naquele domingo, a casa encheu-se de vozes, risos e discussões. O primo Rui trouxe cervejas, a prima Sónia reclamou que a sauna estava demasiado quente, a tia Lurdes criticou a decoração da casa. Senti-me uma estranha no meu próprio lar. Quando tentei sentar-me no sofá, a avó já lá estava, deitada, a ver novelas.
Ao jantar, a discussão começou. O tio António queria saber se podíamos emprestar a sauna para o aniversário dele. “Só para a família, Clara, não custa nada!”
— Não é assim tão simples, tio. A sauna está instalada, não dá para transportar — expliquei, tentando manter a calma.
— Então fazemos a festa aqui! — sugeriu a prima Sónia, já a marcar data no telemóvel.
Olhei para o Marcelo, que revirou os olhos. Senti o sangue ferver. Era demais. Ninguém perguntava se nos importávamos, se tínhamos planos, se precisávamos de descanso. A nossa casa era agora um parque público.
Nessa noite, depois de todos irem embora, sentei-me à mesa da cozinha, exausta. Marcelo aproximou-se, pousou a mão na minha e disse:
— Temos de fazer alguma coisa, Clara. Isto não pode continuar.
Ficámos em silêncio, a ouvir o tique-taque do relógio. Foi então que tive uma ideia. Uma ideia arriscada, mas talvez fosse a única forma de lhes ensinar uma lição.
— E se lhes mostrássemos como é viver sem limites? — perguntei, com um sorriso maroto.
Marcelo percebeu logo. “Queres dar-lhes do próprio veneno?”
Na semana seguinte, liguei à minha mãe. “Mãe, no próximo domingo vamos fazer um almoço especial cá em casa. Traz toda a gente!” Ela ficou radiante. “Vai ser uma festa!”
No domingo, preparei tudo: comida a mais, bebidas, música. Mas desta vez, eu e o Marcelo decidimos não impor regras. Deixámos a porta aberta, literalmente. Os primos entraram, os tios trouxeram amigos, até os vizinhos apareceram. A casa encheu-se como nunca.
No início, todos estavam felizes. Mas à medida que as horas passavam, o caos instalou-se. As crianças correram pela casa, partiram um vaso, a avó reclamou do barulho, o tio António discutiu com o Rui por causa do último pedaço de bolo. A sauna ficou cheia, o vapor era tanto que disparou o alarme de incêndio. O Marcelo fingiu que não via, eu sorri e continuei a servir comida.
Quando a noite caiu, ninguém queria ir embora. Alguns começaram a reclamar do calor, outros do frio, outros ainda da falta de espaço. A casa estava um caos. Foi então que me levantei e disse, em voz alta:
— Sabem, é assim todos os domingos para mim e para o Marcelo. Todos querem aproveitar, mas ninguém pergunta se precisamos de descanso, se queremos estar sozinhos, se a nossa casa é mesmo nossa.
O silêncio caiu como uma pedra. Vi nos olhos deles o choque, a vergonha. A minha mãe tentou justificar-se: “Mas filha, somos família…”
— Ser família não é abusar — respondi, com a voz a tremer. — É respeitar. E nós precisamos de limites.
O Marcelo apoiou-me. “Gostamos de vos ter cá, mas precisamos de espaço. A sauna é nossa, a casa é nossa. Queremos partilhar, mas com respeito.”
Aos poucos, começaram a levantar-se, a arrumar as coisas, a pedir desculpa. A tia Lurdes chorou, o tio António ficou calado. Os primos evitaram o meu olhar. Quando finalmente a casa ficou vazia, sentei-me no chão da sala, exausta mas aliviada.
Na semana seguinte, ninguém apareceu sem avisar. A minha mãe ligou, pediu desculpa. “Não percebi que estava a ser demais, filha.”
— Eu sei, mãe. Mas agora precisamos de encontrar um equilíbrio.
Com o tempo, as visitas tornaram-se mais raras, mas mais especiais. A família aprendeu a respeitar o nosso espaço, e eu aprendi a impor limites. A sauna continua lá, mas agora é um lugar de paz, não de caos.
Às vezes, olho para o Marcelo e pergunto-me: será que era mesmo preciso chegar a este ponto para aprenderem a respeitar-nos? Ou será que, no fundo, todos precisamos de uma lição para perceber o valor dos limites?
E vocês, já sentiram que a vossa casa deixou de ser vossa? Até onde iriam para recuperar o vosso espaço?