Quando Fui Para França: Uma História de Anos Perdidos e Palavras Não Ditas

— Mãe, porque é que nunca estiveste cá quando eu precisei de ti? — A voz do Miguel ecoou pela cozinha, carregada de mágoa e raiva, enquanto eu tentava, em vão, encontrar as palavras certas para responder. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com o silêncio pesado que se instalou entre nós. Olhei para ele, já homem feito, mas nos seus olhos ainda via o menino que deixei em Vila Real, há tantos anos, quando parti para França à procura de uma vida melhor.

Recordo-me como se fosse ontem do dia em que tomei a decisão. O Miguel tinha onze anos e o trabalho na fábrica de calçado já não dava para pagar as contas. O meu marido, o António, tinha morrido há dois anos num acidente de mota, e desde então tudo se tornou mais difícil. A minha mãe, a avó do Miguel, insistia: — Teresa, pensa bem. O dinheiro é importante, mas o teu filho precisa de ti.

Mas eu via o frigorífico vazio, as contas por pagar, e o olhar triste do Miguel quando lhe dizia que não podia comprar-lhe os ténis novos que tanto queria. — Mãe, todos os meus amigos têm — dizia ele, baixinho, sem querer magoar-me, mas cada palavra era uma facada no coração.

A decisão foi tomada numa noite de tempestade, quando a luz foi abaixo e ficámos os dois à luz de velas. — Miguel, a mãe vai ter de ir trabalhar para França. Vou ganhar mais dinheiro e prometo que volto rápido. — Ele não disse nada, só baixou a cabeça e continuou a desenhar no caderno. No dia seguinte, quando lhe dei um abraço apertado antes de entrar no autocarro, senti-o rígido, distante. — Porta-te bem com a avó, meu amor. — Ele não respondeu.

Os primeiros meses em França foram um inferno. Trabalhava numa padaria, acordava às quatro da manhã, as mãos cheias de cortes e queimaduras. Mandava dinheiro todos os meses, mas cada chamada com o Miguel era mais fria. — Está tudo bem, mãe. — E desligava rápido, como se tivesse pressa de fugir da minha voz. Eu chorava sozinha no quarto alugado, com saudades do cheiro da lareira, do som da chuva a bater nas janelas da nossa casa.

A minha mãe dizia-me que o Miguel andava calado, fechado no quarto, que as notas na escola estavam a piorar. — Ele sente a tua falta, Teresa. — Eu sentia-me a pior mãe do mundo, mas não podia voltar de mãos a abanar. — Mais um ano, mãe. Só mais um ano e volto.

Mas os anos passaram. O dinheiro ajudou a pagar as dívidas, a comprar roupa nova ao Miguel, até conseguimos arranjar a casa. Mas cada vez que voltava a Portugal, sentia-o mais distante. — Olá, mãe. — Um beijo na face, frio, quase protocolar. — Como está a escola, filho? — Está tudo bem. — E voltava para o quarto, fechando a porta atrás de si.

Uma vez, tentei surpreendê-lo com uma viagem a Lisboa. — Vamos os dois, mãe e filho, como antigamente. — Ele aceitou, mas durante a viagem mal falou comigo. No regresso, perguntei-lhe: — O que se passa, Miguel? — Nada, mãe. Só estou cansado. — Mas eu sabia que era mais do que cansaço.

Quando terminou o secundário, decidi que era altura de voltar de vez. Arranjei trabalho numa loja em Vila Real, comprei um carro em segunda mão, e tentei recuperar o tempo perdido. Mas o Miguel já era outro. Tinha amigos, namorada, vida própria. — Não precisas de te preocupar, mãe. Eu desenrasco-me. — E eu sentia-me uma estranha na vida do meu próprio filho.

As discussões começaram a surgir por tudo e por nada. — Nunca estiveste cá quando precisei de ti! — gritava ele, uma noite, depois de uma discussão por causa das notas da faculdade. — Achas que o dinheiro compensa os anos que estiveste longe? — Eu tentava explicar-lhe, mas as palavras não chegavam. — Fiz tudo por ti, Miguel. — Pois, mas esqueceste-te de mim.

A minha mãe, já velhinha, tentava apaziguar-nos. — Ele vai perceber um dia, Teresa. — Mas eu via nos olhos do Miguel uma mágoa que não sabia como curar.

Os anos passaram, e a distância entre nós manteve-se. O Miguel formou-se, arranjou trabalho no Porto, e vinha a casa cada vez menos. Eu tentava ligar-lhe, mas as conversas eram curtas, cheias de silêncios. — Está tudo bem, mãe. — E desligava.

No Natal passado, tentei reunir a família. Preparei o bacalhau, fiz rabanadas, decorei a casa como antigamente. Quando o Miguel chegou, trazia a namorada, a Inês, uma rapariga simpática, mas senti que ele estava ali por obrigação. Durante o jantar, tentei puxar conversa. — Lembras-te quando eras pequeno e fazíamos bonecos de neve no quintal? — Ele sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.

Depois do jantar, ficámos os dois na cozinha. — Miguel, desculpa. Sei que falhei contigo. — Ele ficou em silêncio, a olhar para o chão. — Eu só queria dar-te uma vida melhor. — E, finalmente, ele falou, com a voz embargada: — Eu só queria a minha mãe.

Chorei nessa noite como há muito não chorava. Percebi que, por mais que tentasse compensar com dinheiro, presentes, ou viagens, o que o Miguel queria era simples: a minha presença, o meu abraço, o meu amor ali, todos os dias.

Agora, sentados nesta cozinha, com o cheiro do café e o peso das palavras não ditas entre nós, pergunto-me se ainda vou a tempo de recuperar o que perdi. — Miguel, achas que algum dia me vais conseguir perdoar? — Ele não responde, mas vejo nos seus olhos uma lágrima teimosa a querer cair.

Será que o amor de mãe resiste ao tempo e à distância? Ou há feridas que nunca saram, por mais que tentemos? O que fariam vocês no meu lugar?