Entre Duas Paredes: A Visita da Sogra que Mudou Tudo

— Maria, não achas que já chega de açúcar? — A voz da Olívia cortou o silêncio da cozinha como uma faca afiada. Eu estava a mexer o café, as mãos a tremer ligeiramente, enquanto tentava sorrir. — O Paulo sempre gostou do café forte, sem essas coisas — continuou ela, olhando-me de cima a baixo, como se cada gesto meu fosse um erro a ser corrigido.

Senti o sangue a ferver-me nas veias, mas engoli em seco. Não era a primeira vez que a minha sogra fazia comentários destes, mas hoje, por alguma razão, doíam mais. Talvez porque o Paulo estava ali, sentado à mesa, a folhear o jornal, fingindo não ouvir. Ou talvez porque, depois de sete anos de casamento, eu esperava que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa.

— Olívia, cada um tem o seu gosto — arrisquei, tentando manter a voz calma. — Eu gosto assim, e o Paulo também já se habituou.

Ela riu-se, aquele riso seco que sempre me fez sentir pequena. — Habituou-se? Ou foste tu que o obrigaste a mudar?

O Paulo levantou os olhos do jornal, mas não disse nada. O silêncio dele era ensurdecedor. Senti-me sozinha, ali, entre duas paredes: a da cozinha e a da indiferença dele.

Desde que casei com o Paulo, a Olívia nunca me aceitou verdadeiramente. Sempre fui “a rapariga do interior”, a que não sabia pôr a mesa como ela, a que não fazia o arroz solto, a que não tinha família “de nome”. No início, tentei agradar-lhe. Esforcei-me para aprender as receitas dela, para decorar a casa como ela gostava, para ser a nora perfeita. Mas nunca foi suficiente.

— Maria, não te esqueças de que amanhã é o aniversário do tio António — disse ela, como quem dá uma ordem. — Espero que não faças aquela tua tarte de maçã. O Paulo sempre preferiu o meu pudim.

Mordi o lábio, tentando conter as lágrimas. — Eu sei, Olívia. Vou fazer o pudim.

O Paulo suspirou, finalmente. — Mãe, deixa a Maria em paz. Ela faz o que quiser.

Mas era tarde demais. A ferida já estava aberta. Levantei-me da mesa, fui até à janela e olhei para o jardim. Lembrei-me de quando era criança, em Trás-os-Montes, a correr pelos campos, livre, sem ninguém a dizer-me o que fazer. Senti saudades de mim mesma, da Maria que não tinha medo de nada nem de ninguém.

A Olívia levantou-se também, aproximou-se de mim. — Maria, não leves a mal. Só quero o melhor para o meu filho. Ele merece o melhor.

Virei-me para ela, os olhos cheios de lágrimas. — E eu? Não mereço nada?

Ela hesitou, surpreendida com a minha resposta. — Tu… tu és boa rapariga. Mas tens de perceber que o Paulo sempre foi muito especial para mim. Não é fácil para uma mãe ver o filho mudar tanto.

O Paulo levantou-se, finalmente. — Mãe, chega. A Maria é a minha mulher. Se não gostas, paciência.

A Olívia olhou para ele, magoada. — Estás a escolher ela em vez de mim?

O silêncio caiu sobre nós como uma manta pesada. O Paulo não respondeu. Eu sabia que ele não queria escolher, mas a verdade é que, naquele momento, eu precisava que ele o fizesse.

A Olívia saiu da cozinha, batendo a porta. Fiquei ali, parada, a olhar para o chão. O Paulo aproximou-se de mim, pousou a mão no meu ombro.

— Desculpa, Maria. Ela é assim. Não vale a pena.

Afastei-me dele. — Não vale a pena? Paulo, eu já não aguento mais. Sinto que estou a perder-me. Que já não sei quem sou. Tudo o que faço está errado. Tudo o que digo é criticado. E tu… tu nunca me defendes.

Ele ficou calado, a olhar para mim como se me visse pela primeira vez. — Eu… não sabia que te sentias assim.

— Não sabias porque nunca quiseste saber — respondi, a voz a tremer. — Sempre foi mais fácil fingir que está tudo bem.

Ele sentou-se, a cabeça entre as mãos. — O que queres que eu faça?

— Quero que escolhas. Quero saber se estou sozinha nisto, ou se ainda somos uma família.

O Paulo não respondeu. O silêncio dele era a resposta que eu mais temia.

Nessa noite, não consegui dormir. Ouvi a Olívia a falar ao telefone no quarto de hóspedes, a queixar-se da nora, a dizer que o filho estava a mudar, que já não era o mesmo. Ouvi o Paulo a ressonar ao meu lado, alheio ao turbilhão dentro de mim.

No dia seguinte, acordei cedo. Fui para a cozinha, preparei o pudim como ela queria. Cada mexida era uma pequena derrota, cada ingrediente uma concessão. Quando terminei, sentei-me à mesa e chorei. Chorei por tudo o que perdi, por tudo o que nunca tive coragem de dizer.

A Olívia entrou na cozinha, viu-me a chorar. — Maria, o que se passa?

Olhei para ela, sem medo. — O que se passa é que estou cansada. Cansada de tentar agradar a toda a gente menos a mim mesma. Cansada de ser invisível nesta casa.

Ela sentou-se à minha frente, pela primeira vez sem aquele ar superior. — Eu também estou cansada, Maria. Cansada de sentir que perdi o meu filho. Cansada de lutar contra ti, quando só queria que fôssemos amigas.

Ficámos ali, as duas, em silêncio. Pela primeira vez, vi a Olívia como uma mulher, não como uma inimiga. Vi a dor dela, o medo de ficar sozinha, o amor pelo filho. E vi a minha própria dor, o meu medo de desaparecer.

O Paulo entrou na cozinha, olhou para nós, confuso. — O que se passa?

A Olívia levantou-se, foi até ele. — Paulo, a Maria precisa de ti. E eu também. Mas tu tens de decidir o que queres. Não podes continuar assim, a fugir dos problemas.

Ele olhou para mim, depois para a mãe. — Eu… eu quero que sejamos uma família. Mas não sei como.

Levantei-me, aproximei-me dele. — Então começa por ouvir-nos. Por nos ver. Por estar presente.

Ele assentiu, os olhos cheios de lágrimas. — Prometo que vou tentar.

A Olívia sorriu, um sorriso triste. — Eu também vou tentar, Maria. Não quero perder o meu filho. Mas também não quero perder-te a ti.

Nesse dia, fomos ao aniversário do tio António. Levei o pudim, mas também levei a minha tarte de maçã. Pela primeira vez, não me importei com o que iam dizer. Senti-me livre, dona de mim mesma.

À noite, deitei-me ao lado do Paulo. Ele abraçou-me, forte. — Obrigado, Maria. Por não desistires de nós.

Fechei os olhos, sentindo o calor dele. — Às vezes, penso se vale a pena lutar tanto. Se algum dia vou ser suficiente. Mas talvez o mais importante seja não desistir de mim mesma.

E vocês? Já sentiram que precisaram de escolher entre agradar aos outros e serem fiéis a vocês próprios? Até onde iriam para não se perderem?