Hóspede na Casa da Minha Filha: A História de Elisa
— Mariana, posso falar contigo um bocadinho? — perguntei, sentada à mesa da cozinha, as mãos trémulas a brincar com a chávena de chá já frio. O relógio marcava quase dez da noite, e a casa estava mergulhada num silêncio pesado, apenas interrompido pelo som distante da televisão na sala.
Ela apareceu à porta, o olhar cansado, a testa franzida. — O que foi, mãe? — respondeu, sem se aproximar muito, como se a distância física pudesse proteger-nos de uma conversa difícil.
Respirei fundo, sentindo o peso da solidão que me acompanhava desde que o António partira. — Queria saber se posso ajudar em alguma coisa. Sinto que estou sempre no caminho…
Mariana suspirou, desviando o olhar. — Não é isso, mãe. Só… temos rotinas diferentes. E o trabalho, os miúdos… — A voz dela perdeu-se, e eu percebi que não era só cansaço. Era algo mais profundo, uma barreira invisível que se erguera entre nós.
Quando o António morreu, o vazio da nossa casa tornou-se insuportável. Os dias arrastavam-se, cada canto ecoava a ausência dele. Mariana foi a única que me restou. O meu filho, Rui, vive em Braga e raramente telefona. Por isso, quando Mariana sugeriu que fosse viver com ela, agarrei-me à ideia como a uma tábua de salvação. Achei que, juntas, poderíamos sarar as feridas.
Mas a realidade foi outra. Desde o primeiro dia, senti-me uma intrusa. O marido dela, o Pedro, era educado, mas distante. Os meus netos, Leonor e Tiago, estavam sempre ocupados com os telemóveis ou fechados nos quartos. A casa, embora cheia de gente, parecia-me fria, como se eu fosse apenas uma sombra a pairar nos corredores.
Lembro-me de uma manhã, pouco depois de me mudar. Ouvi Mariana e Pedro a discutirem baixinho na cozinha:
— Ela não pode ficar para sempre, Mariana. Isto está a mexer com todos nós.
— O que queres que faça? Ela não tem para onde ir!
— Mas a nossa vida mudou completamente. Já nem jantamos em paz.
Fiquei parada atrás da porta, o coração apertado. Senti-me pequena, indesejada. A partir desse dia, comecei a evitar a cozinha à noite, a tentar ser invisível. Arrumava o meu quarto, limpava a casa quando todos saíam, fazia questão de não incomodar.
Mas a solidão era esmagadora. Às vezes, sentava-me na varanda e olhava para a rua, lembrando-me dos tempos em que Mariana era pequena e corria para o meu colo. Agora, mal trocávamos duas palavras por dia. As conversas eram sempre práticas: “O jantar está pronto”, “Precisas de alguma coisa do supermercado?”, “Os miúdos têm testes amanhã”.
Uma noite, não consegui dormir. Levantei-me e fui até à sala. Encontrei Mariana sentada no sofá, a olhar para o telemóvel. Sentei-me ao lado dela, hesitante.
— Lembras-te de quando íamos à praia, só nós as duas? — arrisquei, tentando puxar uma memória feliz.
Ela sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Lembro, mãe. Mas agora é tudo diferente.
— Sinto a tua falta, filha. — As palavras saíram num sussurro, quase sem querer.
Mariana ficou em silêncio. Depois, levantou-se e disse: — Tenho de ir deitar os miúdos. Boa noite, mãe.
Fiquei ali, sozinha, com as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. Percebi que a distância entre nós era maior do que alguma vez imaginei.
Os dias passaram, todos iguais. O Pedro começou a chegar mais tarde a casa. Os netos evitavam cruzar-se comigo. Até o cão, o Tico, parecia preferir a companhia dos outros. Senti-me cada vez mais um peso, um incómodo.
Um domingo, durante o almoço, tentei puxar conversa:
— Leonor, como vão os estudos?
Ela encolheu os ombros, sem levantar os olhos do prato. — Bem.
— Tiago, e o futebol?
— Já não jogo, avó.
O silêncio instalou-se. Mariana olhou-me, impaciente. — Mãe, podes passar-me o sal?
Senti-me a mais. Levantei-me, lavei a loiça e voltei para o meu quarto. Passei a tarde a olhar para fotografias antigas, tentando encontrar algum consolo nas memórias.
Nessa noite, ouvi Mariana e Pedro a discutirem outra vez:
— Ela está cada vez mais triste, Mariana. Não podemos continuar assim.
— E o que queres que eu faça? Mandá-la embora?
— Não, mas… isto não é vida para ninguém.
No dia seguinte, tomei uma decisão. Fui ter com Mariana à cozinha, enquanto ela preparava o pequeno-almoço.
— Mariana, acho que está na altura de procurar um sítio meu. Não quero ser um peso para vocês.
Ela parou, a faca suspensa no ar. — Mãe, não digas isso. Não és um peso.
— Mas sou, filha. Sinto-o todos os dias. Preciso de encontrar o meu lugar, mesmo que seja sozinha.
Ela não respondeu. Apenas continuou a cortar o pão, os olhos brilhantes de lágrimas que não deixou cair.
Comecei a procurar um quarto para alugar. Visitei lares, falei com assistentes sociais. Tudo me parecia frio, impessoal. Mas preferia isso a continuar a ser uma sombra na vida da minha filha.
Na última noite antes de sair, sentei-me com Mariana na varanda. O céu estava estrelado, e o silêncio era confortável, pela primeira vez em meses.
— Desculpa, mãe — disse ela, finalmente. — Não soube lidar contigo aqui. O pai fazia falta a todos, mas eu… não soube ser filha nem mãe.
Abracei-a, sentindo o peso de tudo o que ficou por dizer. — Não tens de pedir desculpa, filha. Cada um lida com a dor à sua maneira. Só queria que soubesses que te amo, mesmo à distância.
Quando fechei a porta atrás de mim, no dia seguinte, senti um misto de tristeza e alívio. Ia começar de novo, sozinha, mas com a esperança de que, um dia, Mariana e eu pudéssemos reencontrar-nos, não como mãe e filha obrigadas a partilhar um espaço, mas como duas mulheres que aprenderam a viver com as suas perdas.
Agora, sentada no meu pequeno quarto, pergunto-me: será que algum dia deixamos de ser estrangeiros na vida daqueles que mais amamos? Ou será que a verdadeira casa é aquela que construímos dentro de nós, mesmo quando tudo à volta parece desmoronar?