Não corras para o altar, Martina! – A fuga de uma noiva da família tirânica do noivo
— Martina, não te esqueças de sorrir para as fotografias. — A voz da Dona Lurdes, mãe do Miguel, ecoava pelo corredor, misturando-se ao cheiro intenso de flores brancas e ao nervosismo que me apertava o peito. Eu estava sentada na beira da cama do quarto de hóspedes, vestida de branco, mas sentia-me mais prisioneira do que noiva.
A minha mãe, a Dona Teresa, entrou apressada, ajeitando o véu nos meus cabelos. — Filha, tens de ser forte. Lembra-te: casamento é para sempre. — O olhar dela era de preocupação, mas também de resignação. Eu sabia que ela própria tinha engolido muitos sapos ao longo da vida, sempre para manter as aparências, sempre para não desiludir ninguém.
Ouvia os risos abafados vindos da sala, onde os convidados já se juntavam. O meu pai, o senhor António, estava calado, sentado no sofá, com o olhar perdido na televisão desligada. Ele nunca foi de grandes palavras, mas naquele dia parecia ainda mais distante. Talvez sentisse que estava a perder a filha para outra família, talvez apenas não soubesse como me consolar.
— Martina, anda cá! — gritou a minha futura sogra, impaciente. — O fotógrafo já está à espera! — Senti um nó na garganta. Desde o início do namoro com o Miguel, a família dele fazia questão de se meter em tudo. A Dona Lurdes opinava sobre a cor das flores, o tipo de bolo, até sobre o vestido que eu devia usar. O Miguel, por sua vez, limitava-se a sorrir e a dizer: — Deixa, amor, a minha mãe só quer ajudar.
Mas eu sabia que não era só isso. A Dona Lurdes queria controlar tudo, até a forma como eu devia ser esposa do filho dela. — Uma mulher de família, recatada, que sabe cozinhar e não levanta a voz — dizia ela, sempre que podia. Eu, que sempre fui independente, sentia-me cada vez mais pequena.
Naquela manhã, enquanto me olhava ao espelho, perguntei-me: “É isto que eu quero para o resto da vida?” O vestido era lindo, mas parecia pesar toneladas. O sorriso que eu tentava forçar era mais uma máscara do que um reflexo de felicidade.
O Miguel entrou no quarto, sorrateiro, quebrando a tradição de não ver a noiva antes do casamento. — Estás linda, amor. — Ele tentou beijar-me, mas eu desviei o rosto. — O que se passa? — perguntou, preocupado.
— Sinto-me sufocada, Miguel. Não sei se consigo… — As lágrimas começaram a cair, silenciosas. Ele tentou abraçar-me, mas eu afastei-me.
— É só o nervosismo, Martina. Vai correr tudo bem. — A voz dele era doce, mas distante. Ele não percebia, ou não queria perceber, o peso que a família dele tinha sobre mim.
— Não é só nervosismo, Miguel. Eu sinto que estou a perder-me. Que já não sei quem sou. — A minha voz saiu trémula, mas firme. Ele olhou-me, confuso.
— Mas… nós amamo-nos, não amamos? — perguntou, quase como uma criança assustada.
— Eu amo-te, Miguel. Mas não sei se consigo amar esta vida que me espera. — O silêncio entre nós foi cortado pelo som da Dona Lurdes a bater à porta.
— Já chega de conversas! Martina, anda, que já estamos atrasados! — O tom dela não admitia discussão.
O Miguel saiu, cabisbaixo. Fiquei sozinha, a olhar para o meu reflexo. Vi uma mulher que já não reconhecia. Lembrei-me de quando era miúda, a correr pelos campos da aldeia, livre, sem medo de desiludir ninguém. Onde tinha ido parar essa Martina?
Desci as escadas, sentindo todos os olhares sobre mim. A minha mãe sorriu, mas os olhos dela estavam marejados. O meu pai levantou-se, aproximou-se e sussurrou-me ao ouvido:
— Se não quiseres, não precisas de ir. — Foi a primeira vez que ele me deu permissão para falhar, para ser eu própria. Senti um calor no peito, uma coragem que não sabia que tinha.
A Dona Lurdes aproximou-se, pegou-me no braço com força. — Agora não há volta a dar, menina. A família toda está à espera. — O aperto dela era mais do que físico; era uma prisão.
Olhei para o Miguel, que me esperava junto ao altar improvisado no jardim. Ele parecia nervoso, mas feliz. Os convidados murmuravam, ansiosos. O padre ajeitava os papéis, impaciente.
Dei um passo em frente, depois outro. Cada passo parecia afastar-me mais de mim mesma. O coração batia descompassado. Quando cheguei ao altar, o padre começou a cerimónia. As palavras dele soavam distantes, como se viessem debaixo de água.
— Martina, aceitas Miguel como teu legítimo esposo? — perguntou o padre.
Olhei para o Miguel, depois para a Dona Lurdes, que me fitava com olhos de águia. Olhei para os meus pais, para os convidados. Senti o peso de todas as expectativas, de todos os sonhos que não eram meus.
— Martina? — insistiu o padre.
O silêncio era ensurdecedor. Senti as lágrimas a escorrerem pelo rosto. — Desculpem… — sussurrei, quase sem voz. — Eu não posso.
O Miguel ficou branco como a cal. A Dona Lurdes levantou-se de rompante. — O que estás a fazer, rapariga? Vais envergonhar-nos a todos?
— Prefiro envergonhar-vos agora do que passar a vida inteira a envergonhar-me a mim mesma — respondi, surpreendendo-me com a minha própria coragem.
A minha mãe correu para mim, abraçou-me com força. — Vai, filha. Vai ser feliz. — O meu pai, pela primeira vez, sorriu.
Corri pelo jardim, sentindo o vento a bater-me no rosto, o vestido a arrastar-se pelo chão. Ouvi os gritos da Dona Lurdes, os murmúrios dos convidados, mas não olhei para trás. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-me livre.
Fugi para a praia, onde tantas vezes tinha ido pensar em silêncio. Sentei-me na areia, ainda de vestido de noiva, a olhar para o mar. O telefone tocou, era o Miguel. Não atendi. Precisava de tempo para mim, para me reencontrar.
Os dias seguintes foram um turbilhão de emoções. Recebi mensagens de familiares, amigos, alguns a apoiar-me, outros a criticar-me. A Dona Lurdes ligou-me dezenas de vezes, a chamar-me ingrata, a dizer que tinha destruído a vida do filho dela. O Miguel mandou-me uma carta, a dizer que me amava, mas que percebia que eu precisava de espaço.
Voltei para casa dos meus pais. A minha mãe preparou-me o meu prato favorito, arroz de pato, e sentou-se comigo à mesa. — Fizeste o que o teu coração mandou, filha. Isso é o mais importante. — O meu pai, como sempre, limitou-se a sorrir e a dar-me um beijo na testa.
Comecei a reconstruir-me. Voltei a trabalhar na biblioteca da vila, a passear pelos campos, a reencontrar amigos antigos. Aos poucos, fui recuperando a Martina que tinha perdido. Percebi que não precisava de me anular para agradar a ninguém, que a minha felicidade não podia depender das expectativas dos outros.
O Miguel acabou por vir falar comigo. Encontrámo-nos no café da praça. Ele estava magoado, mas sereno.
— Ainda te amo, Martina. Mas percebo que não posso obrigar-te a viver uma vida que não é tua. — As palavras dele foram um alívio e uma dor ao mesmo tempo.
— Também te amo, Miguel. Mas preciso de ser eu própria. Talvez um dia, noutra vida, possamos ser felizes juntos. — Ele sorriu, triste, e levantou-se.
A Dona Lurdes nunca me perdoou. Dizem que ainda hoje fala de mim como “a noiva fugitiva”. Mas aprendi a viver com isso. Aprendi que a minha liberdade vale mais do que qualquer aprovação.
Hoje, quando passo pela igreja da vila e vejo casamentos a acontecer, pergunto-me quantas Martinas estarão ali, a tentar agradar a todos menos a si próprias. Quantas terão coragem de fugir, de se escolherem a si mesmas?
E vocês, já sentiram que estavam a viver a vida de outra pessoa? O que fariam se tivessem de escolher entre a vossa felicidade e as expectativas de quem vos rodeia?